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Stone Art

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Aldeia global

Foto de Thomas Dunkerley


Comecei a usar a Internet no ano de 1998. A primeira coisa que fiz quando me liguei à Internet foi mandar um e-mail a um amigo com quem estava zangada há uns tempos. Confesso que lhe poderia ter telefonado mas não sabia se ele me ia atender. E também não sabia se ia conseguir dizer-lhe tudo o que queria. Fizemos as pazes no dia a seguir e, a partir desse momento fui conquistada pela net.
Nos meses seguintes, e através do ICQ, conheci pessoas fabulosas. Umas de perto com quem comecei a me encontrar regularmente, outras de outros países e outros continentes com quem o contacto era mesmo só virtual.
Quando visitei os Estados Unidos, em 1999 encontrei-me com um dos meus amigos de lá. Quando fui a Londres em 2000, encontrei-me com uma família com a qual mantinha contacto. Na minha casa recebi a visita duma amiga brasileira. Filipinas, Algéria, Japão… uma lista infindável de países onde tinha (e tenho) amigos virtuais. Claro que também havia amigos portugueses. E encontrávamo-nos com regularidade.
Muitas das amizades que nasceram na Internet desse tempo tornaram-se reais. Pessoas com quem, em condições normais, não me cruzaria, passaram a fazer parte integrante da minha vida. Casei-me com uma delas. No nosso grupo houve mais dois casamentos.
Não houve apenas sucessos nestes relacionamentos. Lembro-me de casos em que havia problemas sérios, histórias que me fizeram (e ainda fazem) alguma confusão. Um rapaz novo que se perdeu de amores por uma rapariga doutro continente e que passava horas a falar com ela, e que a maior alegria que sentia era quando podiam partilhar ficheiros no computador. Uma amiga brasileira que veio a Portugal conhecer o rapaz com quem namorava virtualmente e que descobriu que ele era casado e pai de duas crianças. Um português, divorciado, que se apaixonou por uma brasileira só por uma foto que nem sabia se era dela. Uma pessoa que se fez de muito amiga, interessada e que acabou a perseguir outro amigo meu.
Passaram-se 10 anos e a minha avaliação da utilização da Internet em termos de relacionamentos pessoais é francamente positiva. Já passei por diversos programas de conversação, por diversos sites e em todos eles conheci pessoas que hoje fazem parte integrante do meu mundo, e que, muito provavelmente nunca viriam a fazer. Ganhei amigos nas quatro partidas do mundo, alguns deles não lhes conheço a cara, mas nem por isso os desvalorizo. Claro que também tive a minha quota-parte de desilusões, mas que eu menosprezo.
Também através da Internet foram-me dadas segundas oportunidades com amigos com os quais, por qualquer razão, lhes tinha perdido o rasto.
Hoje uso o e-mail e o Messenger para manter esses contactos. Ao longo do dia vou conversando com alguns amigos por mail (aqueles que tem e-mail no trabalho e que o podem fazer, claro), à noite trocamos impressões no Messenger (que podem ou não ser os mesmos com quem falei durante o dia) e muitas vezes encontramo-nos mesmo para almoçar, beber um café ou para assistirmos a um evento qualquer. Alguns conheci primeiro num evento e depois é que passamos a usar o e-mail.
Não creio que seja negativo conhecer pessoas desta forma. Desde que não se perca a noção que, do outro lado do computador está um ser humano com defeitos e virtudes.
Na verdade, vivemos todos numa “aldeia global” e temos novas ferramentas ao nosso dispor. Cabe a cada um de nós saber utiliza-las da melhor forma possível para que possamos interagir globalmente de uma forma satisfatória.
Pessoalmente sinto-me satisfeita com esta forma de estar, e, se souber que, do outro lado, também se sentem assim, ainda melhor.

Nota final – Muitos de vós não devem saber o que é o ICQ. O ICQ (ou iCQ) é um programa de comunicação instantânea pela Internet que foi o mais popular durante anos. A sigla é um acrónimo baseado na pronúncia das letras em inglês (I Seek You), em português, "Eu procuro você". O ICQ foi o pioneiro desta tecnologia tendo sido lançada a sua primeira versão em 1997 por uma empresa israelita chamada Mirabilis.