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Stone Art

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Sejam bem vindos a esta minha casa.

É uma girafa!

Foto de Win Ipenburg


Estou certo de não errar, ao afirmar que todos nós, a sós ou acompanhados, já nos detivemos a olhar as nuvens e a decifrar imagens, que as suas mais variadas formas nos induzem. São momentos de nariz no ar, pés no chão e cabeça nas nuvens. Viramos nuvens de carne e osso. Parece uma girafa, penso eu, feliz com a minha definição da nuvem à minha esquerda, só uma girafa de pescoço muito comprido consegue chegar com a cabeça às nuvens. Vá lá, não se riam. Até aposto que para vocês a mesma nuvem parece um anjo. Mas não é, eu, é que tenho razão, é uma girafa. Há sempre um ou outro no deserto imaginativo, que por mais que olhe, só consegue ver uma nuvem. Outros só para contrariar dizem que parece um elefante. Eu ainda sou capaz de aceitar que pareça um camelo, sempre é mais parecido com uma girafa. Não acham? Pois, eu logo vi, querem contrariar-me a todo o custo. Mas eu não me importo, sorrio enquanto glorifico o meu pensamento: É uma girafa!

Fico danado por não entenderem, que me dá muito jeito para escrever este texto, que a nuvem seja uma girafa. Seja lá como for defendo-me teimosamente, com unhas e dentes. É uma girafa! Por mais que insistam, não aceito outra imagem literária para a minha nuvem. Bem sei que muitos gostavam mais que eu fosse óbvio, previsível, que acatasse sem contrapor as coisas do senso comum. Uma sociedade formatada por igual é que lhes dava jeito. Onde ao olhar as nuvens, se vissem apenas nuvens. Sem mais. Para quê perder tempo a olhar as nuvens? Nuvens são nuvens. Dizem-me. Mas eu divirto-me a enganá-los. Tantas vezes lhes digo sim com a boca e não com o pensamento. (É uma girafa!) A minha alma parte-se a rir, enquanto eu engano descaradamente, uma plateia de cretinos e espertos. Há sempre um ou outro manhoso, de falinhas mansas a querer tira-me a cabeça das nuvens. Chegam até a louvar-me como ser humano, vejam lá bem. Querem comédia? Está bem, eu alinho. (Mas é uma girafa!)

Se lhes der jeito eu até sou capaz de fazer de fantasma, só que depois assombro-os e eles detestam. Fantasma até é uma boa imagem para uma nuvem. Rio-me tanto por dentro que se me assomam as lágrimas aos olhos. Eles ficam todos contentes, pensam que me fizeram chorar de tristeza. Eh! eh! eh! eh!... Mas eu estou tão feliz, comigo e com a minha nuvem. O que eles não sabem, nem nunca saberão, é que nas minhas observações desligadas da lógica, vou descobrindo verdades, ainda que feitas de imagens literárias, nem por isso deixam de ser verdades. Eu sou feito de pedaços de vida e fantasia. Cada um com a sua realidade, mas de modo algum hipotequem as vossas fantasias, por mais sedutora que seja a oferta que vos fizerem. Hipotecar a nossa fantasia, é como estender obedientemente, os braços para as algemas.

Ah! Não se esqueçam.

É uma girafa!!!

Texto de António Paiva.

Recomendo vivamente que visitem o blogue dele, http://dos-meuslivros.blogspot.com/ e que fiquem a conhecer a fabulosa experiência que o António teve ao fazer "Uma viagem com livros".