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Stone Art

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Suicídio

Foto de Madalina Iordache

Como quase sempre, hoje, na minha viagem de barco para Lisboa ia a dormitar. Mais ou menos a meio da viagem, e sem saber muito bem porquê abri os olhos e vi um arco-íris lindo. Sabem, daqueles em que as cores estão bem definidas, e que quase podemos ver o pote de ouro no fim de cada lado. E pensei para mim – hoje vou ter um dia bom. E até comentei com um amigo e com o meu colega o que tinha visto e o quanto eu gostava de ver o arco-íris – acho que até disse que era como as crianças, fico encantada quando os vejo.
Talvez pela associação do arco-íris à lenda (ou realidade?) da arca de Noé. Lembram-se? Depois de terminado o dilúvio, surge no céu um arco-íris como sinal de que nunca mais Deus destruiria a terra. Sinto-me sempre reconfortada quando os vejo. O dia corre bem, de certeza...
Certo é que até foi um dia como os outros. Nada de extraordinariamente positivo aconteceu. Até aqui tudo bem, também não esperava ganhar o euromilhões lá porque tinha visto o arco-íris (bem, até porque, para isso era preciso que tivesse jogado).
Ao fim do dia, e tal como estava agendada, lá fui a uma reunião. No decorrer da reunião o senhor com quem estava reunida recebeu uma chamada. Acabou por atender (pedindo-me as devidas desculpas) e... bem, aqui o meu dia descambou. Porque o telefonema era para avisar o senhor que tinham acabado de encontrar o pai dele enforcado na cave. Como podem imaginar a reunião acabou de imediato... e eu, que até julgava que o dia me ia correr bem, acabei-o com uma enorme sensação de vazio.
O que levará uma pessoa a cometer suicídio? Será cobardia? Será que a pessoa se sente incapaz de ultrapassar os problemas que tem ou pensa ter? Será que há alguma razão válida para cometer suicídio? Que será tão grave que leve uma pessoa a quer deixar de estar com os seus entes queridos, deixar de sentir o vento na cara, o cheiro das flores, ouvir o riso duma criança? Não será cobardia não enfrentar os problemas, não os tentar resolver?
Será coragem? Não será preciso coragem para tomar uma atitude destas? Saber o exacto momento da morte, preparar a morte e, quiçá, vê-la chegar? Não será preciso coragem para meter uma corda pendurada no tecto e depois subir a um banco, meter o pescoço lá dentro e dar um pontapé no banco? Atirar-se duma ponte ou para a frente dum comboio?
Acima de tudo acho que são pessoas desesperadas. Que acham que a vida já lhes deu tudo e que nada mais esperam senão sofrimento. Que não tem apoio suficiente das suas famílias (ou que acham que não têm). Que são doentes, na maior parte das vezes, e que, por descuido e falta de tempo, os que lhes são próximos não se apercebem...
São inúmeras as razões para o suicídio. Para mim, nenhuma é válida. Amo a vida tal qual ela é. Cheia de espinhos. Porque são os momentos mais espinhosos que me levam a saber apreciar os momentos mais belos. Não fora ter problemas, como saberia eu o que é não os ter? Gosto de sentir a chuva, de ter frio, de cheirar as flores, de brincar com os meus filhos, de estar com os amigos, de ter fome e de a saciar a seguir... tudo, os bons e os maus momentos. Gosto de todos os momentos. Gosto de viver e de me sentir viva.
(escrito a 11/04/2008)