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Stone Art

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Pedra Filosofal

Foto de John Ellsworth

Coloco vagarosamente o ouvido na pedra. Um sinal estranho parece vir dentro dela. Um eco de outros ecos. As ondas do Tejo sendo abaladas por um adamastor. Gritos de homens num décimo quinto andar em chamas. Tiro o ouvido da pedra: os mesmos sons sofridos, a mesma malha que é usada para acender a lareira. O crepitar da maresia. Aperto a pedra nas mãos, quase ao ponto de a esmagar e, lanço-a para a vertigem do mar. Fiquei com a sensação que ignorara uma grande descoberta, a vida da pedra, a filosofia da pedra. Caminhei na direcção contrária do mar e entrei numa taberna onde as guitarras soam mais do que os marinheiros tenteando. Sentei-me. Junto a uma imitação rasca de pollosk. Ouvia ao longe a voz da pedra chegando com o cheiro a maresia, arrastei o que não conhecia para também eu ser desconhecido e estendi a minha vida na toalha daquela mesa. Suspirei bem alto o nome de uma pedra que tinha despertado a minha feliz existência e finalmente, mais do que nunca, sabia que teria de conseguir apaixonar-me mais tarde ou mais cedo. Descansei o olhar sobre uma mulher sentada ao balcão e descrevi-lhe as fórmulas secretas do amor proveitoso, desse que cai em forma de suor frio pelas costas abaixo e com a vida estendida defronte, pisquei-lhe o olho. Num convite de corpos que se querem, dançamos com os braços tão agarrados que parecia que de quatro só restavam dois assim tão unidos. Quando ao fim das cantigas ela me convidou para subir eu, desiludido com o seu cheiro a ave rara, fugi para a praia e escondi-me na areia. Esperei sentado com a luz do luar a iluminar as águas, esperei que poseidon tivesse a generosidade de me devolver a pedra mas quando a manhã começou a romper a linha do horizonte, já sem esperanças, meti as mãos nos bolsos vazias e virei costas ao salgado do mar. De repente sinto que, enrolada nos dedos dos meus pés estava uma pedrita, não tão grande nem tão bela como a que tinha conhecido antes do baile, mas carregada igualmente de sonhos, os meus sonhos. Com os olhos cobertos de lágrimas corri praia fora com a pedra acarinhada entre as minhas mãos.
Para a Pedra Filosofal
Escrito por Flávio Silver e Margarete
Obrigado. Obrigado meus queridos amigos. Sinto-me agradecida por este texto que me dedicaram. Lindo, como vocês os dois são. Nunca poderei agradecer o suficiente por o terem escrito. Um beijo aos dois. Daqueles do tamanho do universo.