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Stone Art

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Intercâmbio Poético

Foto de Gustavo Rodriguez

Em tempos falei-vos da necessidade que algumas pessoas sentem de escrever. Aquele necessidade quase visceral de passarem para um papel palavras que se juntam num poema, numa carta ou num simples texto. Desabafos, sentimentos, crónicas... cada um no seu estilo, reflexo da sua forma de estar e de ser.
Cada um desses escritores é uma pessoa. Única. Com defeitos, virtudes, capacidades que fazem com que a sua forma de escrever seja, também ela única. Mas há um laço que os une. A escrita para uns, a leitura para outros.
Para saber escrever é preciso, primeiro, saber ler. Não estou, claro, a falar da aprendizagem na escola primária, onde o processo é simultâneo. Aprendemos a ler e a escrever ao mesmo tempo. Estou a falar dos escritores, daqueles que escrevem em blogs, sites de escrita ou mesmo que publicam livros.
Saber ler não é passar os olhos na diagonal, chegar ao fim e dizer que o título diz tudo. Saber ler é ler com espírito crítico, ler nas linhas e nas entrelinhas. Saber ler é apreender tudo o que está no texto. É ler uma frase e pensar que ficaria melhor de uma ou doutra maneira, ou pensar que é uma frase perfeita e que gostaria de ter sido o próprio a escrevê-la.
Muita da minha aprendizagem saiu dos livros e dos textos que vou lendo. Hoje, quando escrevo alguma coisa, não perco de vista autores que me influenciam, de forma positiva ou negativa. É nos textos deles que encontro as lições que preciso para escrever (e quanto ainda tenho para aprender).
Ler é também viajar. Pelas imagens que outros construíram. E, quantas vezes, é nessas imagens construídas pelos outros que se vai buscar a inspiração para o que se vai escrever a seguir. Lembro-me, por exemplo do caso da história do Harry Potter. Considerações à parte sobre a qualidade, J.K.Rowling assume ter-se inspirado em algumas colectâneas da Enid Blyton, por exemplo, “o colégio das quatro torres” e “as gémeas no colégio de Santa Clara”.
O intercâmbio poético entre a leitura e a escrita não termina por aqui. Pelo contrário, enquanto houver quem saiba ler terá de haver quem saiba escrever (ou vice-versa). A leitura não existe sem a escrita, mas a escrita também não existe sem a leitura. São duas faces da mesma moeda – os textos.
Devemos também ter uma preocupação suplementar quando sabemos que os nossos textos vão ser lidos, devemos esmeramo-nos mais, uma vez que, para além da necessidade de transcrever os nossos sentidos temos a responsabilidade de respeitar a escrita, respeitando assim o leitor que, na maioria das vezes, é um estranho para o autor.
Temos mais cuidado com o que escrevemos quando sabemos que estranhos nos podem ler do que teríamos se só escrevêssemos para amigos, e ao termos esse cuidado temos a possibilidade de nos ir aperfeiçoando, tentando não falhar.
Claro, falhas acontecem a todos. E é importante sabermos disso e aceitarmos a crítica de outros. Não se trata de críticas relativas à qualidade. A qualidade não é mensurável, ao contrário dos erros de ortografia ou de gramática. Trata-se sim de críticas construtivas que ajudem o autor a melhorar. E é essa a função do leitor. Ajudar o autor a encontrar as suas falhas, para que, no texto seguinte, possa melhorar. E é função do escritor corresponder às expectativas do seu leitor, continuando a escrever e a publicar. Num intercâmbio poético.