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Stone Art

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Homem e mulher

Foto de Roman F Hümbs

Um amigo deu-me a conhecer um texto com este título, da autoria de Jacques Leclercq. É filosofia, diz-me ele.
Depois de ler o texto, fiquei com pele de galinha e com uma enorme vontade de gritar aos sete ventos que homens e mulheres são exactamente iguais, o que muda é a pessoa em causa.
Ele há homens que não mexem uma palha em casa e que esperam que lhes caia do céu tudo feito… mas também há mulheres assim. Há mulheres que tiveram filhos para não lhes ligar nenhuma… e homens que lutam contra tudo e contra todos para terem os filhos com eles e para lhes darem a atenção que merecem. Homens que não deixam a mulher se pronunciar sobre a educação dos filhos e mulheres que recusam que os homens participem na vida das crianças. Mulheres bastante decididas, quer na vida pessoal, quer na vida profissional e homens que nem sequer a cor dos boxers conseguem decidir. Homens que prestam atenção a detalhes… e mulheres que nem sabem o que são detalhes, quanto mais prestarem-lhes atenção…. É preciso continuar?
Concordo, quando o autor diz que “para que a união se realize plenamente, cada um deve ter o cuidado de dar ao outro aquilo de que tem necessidade” – mas sem pré determinação de que a mulher quer isto e o homem quer aquilo. Nem todos os homens querem ser responsáveis ou protectores assim como nem todos se sentem constrangidos quando falam dos seus empregos com as mulheres. E nem todas as mulheres querem ser protegidas ou mimadas enquanto esperam que o homem seja viril e que traga o dinheiro para casa embrulhado em atitudes brutas.
Acho também um tremendo disparate (mas quem sou eu?) quando, neste texto, é defendido que a infidelidade da mulher é mais prejudicial que a do homem. Mas então um casamento não é construído a dois? Não têm de estar os dois empenhados? Então quase que se reconhece o direito à infidelidade no homem, mas à mulher já não?
Convenhamos e sejamos honestos. Não há homens perfeitos nem mulheres perfeitas. O que tem de haver é interesse de ambas as partes em adaptarem-se, sem que esteja pré determinado qual o papel do homem e qual o papel da mulher. Partilhem responsabilidades e sejam vocês próprios, sem se deixarem prender pelos papéis “consagrados” aos homens e às mulheres e ai sim, poderá haver entendimento.

Nota final – Podem consultar o texto de Jacques Leclercq em http://familia.aaldeia.net/amorhomemmulher.htm

Pensar é transgredir

Foto de Viva

Não me lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade embora pareça que ainda estamos vivos.
Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demasiado fútil, nem demasiado acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos cornos, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.
Para se reinventar é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.
Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero tornar-me ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do quotidiano. Mais cómodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adoptar o lema reconfortante: «Parar p'ra pensar, nem pensar!»
O problema é que, quando menos se espera, ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do centro comercial, no trânsito, em frente da televisão ou do computador. Simplesmente ao escovar os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afecto, do desafecto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.
Sem termos programado, paramos para pensar.
Pode ser um susto: como espreitar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão abrir-se para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.
Pensar pede audácia, pois reflectir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.
Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distracções, correndo de um lado para o outro, achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem somos, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado ao urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.
Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e, quem sabe, finalmente respirar.
Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.
Se nos escondermos num canto escuro, abafando os nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos.
Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e das possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.
Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
Parece fácil: «Escrever a respeito das coisas é fácil», já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espectacular, nem desejar nada de excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.
Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer segurança.
Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o mau. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade.
Sonhar, porque, se desistimos disso, apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.
E que o mínimo que façamos seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer.
Lya Luft

Episódios


No meu tempo de faculdade pertenci, durante uns anos, à Associação de Estudantes. No primeiro ano em que fomos eleitos, tinha sido a equipa que estava de saída que reuniu os elementos da nova lista candidata, e que nos colocou, nos diversos departamentos, de acordo com as mais-valias que encontravam em cada um de nós.
A mim calhou-me o departamento pedagógico. Éramos três, eu, o Mário e a Maria. Praticamente ninguém se conhecia na nova direcção, e só na véspera das eleições é que tivemos oportunidade de estar juntos.
Quando nos tivemos que reunir a primeira vez começaram os problemas. Cada um falava para o seu lado e ninguém se entendia. Sai de lá a pensar que tinha feito uma tremenda duma asneira ao aceitar o convite. Mas, feliz ou infelizmente, não sou pessoa de desistir perante as contrariedades. Aos poucos fomos falando, eu e os outros elementos, e concluímos que se deveria dar espaço a que todos pudessem intervir, todas as opiniões deveriam ser ouvidas, até porque todas opiniões são importantes, antes de se tomar uma decisão e que, acima de tudo, éramos um grupo que se pretendia unido e coeso, donde, fora das reuniões deveríamos manter uma postura condizente com essa coesão. Optamos todos por seguir esta postura e, nos três anos que se seguiram, as reuniões passaram a ser produtivas.
No entanto, no departamento pedagógico as coisas não foram tão lineares. A primeira vez que nos reunimos apenas nós os três, eu e a Maria entramos em guerra aberta. Ambas com personalidade forte, com opiniões vincadas e dando pouca margem de manobra, sem admitir falhas (nem a nós, nem aos outros). Nenhuma de nós estava disposta a ceder uma vírgula nas suas convicções. E, naqueles primeiros meses de trabalho em equipa, a convicção duma seria, obrigatoriamente contrária à da outra – mesmo que as evidências apontassem numa só direcção.
O Mário, apanhado entre dois fogos, viu-se na contingência de meter, muitas vezes água na fervura. Não podia tomar partidos porque, se o fizesse, estaria condenado a enfurecer a outra. Se não tomava partido, então enfurecia as duas.
Confesso-vos que não foram momentos fácies. Para nenhum de nós os três.
Um mês depois das eleições já todos os departamentos da Associação se entendiam, e a equipa, na sua totalidade, entendia-se e funcionava. Nós os três destoávamos.
Naquela altura, e naquela faculdade, o departamento pedagógico da Associação de Estudantes tinha algum peso. Os calendários dos exames e frequências passavam por nós, as queixas dos professores eram canalizadas para nós decidirmos o que propor ao conselho pedagógico da faculdade… enfim, uma panóplia de tarefas que estavam suspensas por falta de entendimento entre mim e a Maria.
Num dia em que estávamos mais aguerridas e que o Mário já estava desesperado, ele decidiu, finalmente, tomar uma atitude. Sentou-nos às duas na sala de reuniões e fez-nos saber que estava farto das nossas birras. Que, duma vez por todas, tínhamos de perceber que os nossos dissentimentos não favoreciam ninguém, antes prejudicavam todo um universo de estudantes. Que tínhamos de aprender a ceder, porque não podíamos ter sempre razão. E ele não tinha mesmo paciência para estar a apagar os fogos que nós criávamos por estarmos sempre guerrear. E, portanto a solução era entendermo-nos as duas duma vez. Tanto nós como a AE como a faculdade teríamos a ganhar com isso.
Não sei se da forma como ele falou, se de nós já estarmos também cansadas das lutas diárias, ou do que foi, sei que resolvemos, ali mesmo, enterrar o machado de guerra, a bem duma causa maior – a faculdade e/ou os alunos.
Depois deste dia, e durante anos tive, na Maria, a melhor amiga que se pode desejar. Hoje em dia estamos mais afastadas, não porque queremos, mas porque a vida nos obrigou a isso. O Mário ganhou o seu lugar no meu coração. A lição que ele me deu, naquele dia, nunca mais foi esquecida.
* Os nomes são fictícios, mas a situação foi real.

A minha prioridade é aprender e depois saber!

Foto de Agnieszka Borkowska

Esta frase, dita por um jovem, um dia num qualquer telejornal, reflecte aquela que deveria ser a prioridade de todo o ser humano. Primeiro aprender. Depois saber.
Desde o dia em que nascemos começamos a aprender… e o processo de aprendizagem termina (ou não, para quem acredita na reencarnação) com a morte. Enquanto estamos vivos estamos sempre a aprender.
Há uma história antiga que conta que um ancião, no seu leito de morte, recebeu a visita do seu jovem médico que lhe terá ensinado como deveria respirar nos momentos em que tivesse mais dores. Depois de experimentar e de ter comprovado que assim era, terá respondido que se aprende até morrer.
Assim é, de facto.
Não podemos ter a veleidade de dizer que sabemos de tudo, que somos perfeitos, que não erramos e que não precisamos de aprender. Quem pensar assim sentir-se-á, com certeza, muito só. Isolado do resto das pessoas. O ser humano é imperfeito, erra, tem dúvidas. Enquanto caminhamos para a nossa (inevitável) morte, estamos a aprender, a corrigir-nos… e estamos acompanhados por outros que se encontram nas mesmas circunstâncias. Quem não partilha este caminho, por se achar superior aos outros, estará só na sua caminhada e chegará ao fim sem conhecer a alegria da aprendizagem e da partilha.
Acho que foi Gandhi que disse que “um pai sábio deixa que os filhos cometam erros. É bom que, de quando em quando queimem os dedos”. Sem cometermos erros não vamos, decerto aprender com eles. E, se voltamos a cometer os mesmos erros, então é porque não aprendemos convenientemente da primeira vez.
A evolução do ser humano, enquanto espécie, resultou de tentativas, de aprendizagem. A nossa evolução pessoal resulta do mesmo. De tentar, errar e aprender, porque, cada dia que passa traz-nos novos ensinamentos... assim se queira aprender. Aprender e depois saber!

Sobram coisas para fazer depois de acabar o tempo...

Foto de Wayne Suffield

Acendem-se as luzes da rua
Antes da noite descer
Os passos apressam-te
No vagar de um transporte
Que te leva ao destino das coisas maiores

E no rodar da chave
Risos e gritinhos
Desenham a felicidade
Na esquina da tua vida

No descanso do sofá
Acolá…habitual
Adormeces o cansaço
Num sorriso pleno…cheio de ti!

E assim…
Sobram coisas para fazer
Depois de acabar o tempo…

Manuela Fonseca

Um dia destes estávamos as duas à conversa, quando me saiu esta frase que uso habitualmente... no dia a seguir saiu este poema

A amizade

Foto de Durr Wise

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.
A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.
E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências ...
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.
Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo. Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer...
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos!
A gente não faz amigos, reconhece-os.

Vinícius de Moraes

Para todos os meus amigos... todos, os presentes, os ausentes, os novos, os velhos, para todos aqueles que fazem com que eu me sinta bem comigo mesma. E que me sinta viva. Obrigado por existirem. Obrigado por me terem reconhecido.

Falando de preconceitos

Foto de Pat Merz

Tenho tido oportunidade de acompanhar a colocação de textos sobre sexo em diversos sites ligados à literatura. Com opiniões contra e opiniões a favor.
Hoje decidi-me a expor a minha opinião sincera sobre este tema. A sexualidade e a literatura a ela dedicada.
Ao longo da nossa vida passamos por diversas fases... uma delas é a descoberta da nossa sexualidade. Todos, sem excepção, passamos por isso. E se uns descobrem que tem a tendência sexual dita normal, outros há que descobrem o prazer sexual com parceiros do mesmo sexo e que, por serem em menor número e se acharem anormais acabam por se esconder.
Lembro-me que, só quando o Freddy Mercury morreu e o mundo soube que ele tinha SIDA e que era gay é que se começou a falar no assunto. Só após a sua morte é que muitos gays tiveram coragem de se assumir como tal. E porquê? Porque a homossexualidade era vista como um tabu, como uma coisa a evitar, uma doença... casos houve em que os homossexuais se sentiam tão diferentes que tentaram o suicídio. Saber que Freddy Mercuri, Rock Hudson e Elton Jonh (só para mencionar alguns) eram gays veio ajudar muitos anónimos a aceitarem que o são.
Aliás, só depois da morte de Mercuri é que a SIDA começou a aparecer nas notícias de jornais, começou a ser estudada. Hoje é fácil de perceber que, caso ele tivesse assumido ser portador do Síndrome de Imunodeficiência Adquirida, o estudo da doença teria iniciado mais cedo, mais cedo se saberia quais os veículos de transmissão...
Quero, com estes exemplos, mostrar apenas que cabe a cada um de nós fazer os possíveis para que os homossexuais se aceitem como iguais aos outros, diferentes apenas nas preferências sexuais.
Quanto à colocação de textos com a descrição de actos sexuais, independentemente das orientações sexuais dos envolvidos, poderem, ou não, estar num site de literatura... bem, nada como dar mais exemplos. Anais Nin, Marquês de Sade, Hilda Hist... quantos mais querem que escrevem livros eróticos e que vendem?
Há, efectivamente, uma diferença bastante grande entre erotismo e pornografia. A esse propósito, e para que fique claro, trago aqui duas definições da Wikipédia.
Erotismo é o conjunto de expressões culturais e artísticas humanas referentes ao sexo. A palavra provém do latim ‘eroticus’ e este do grego ‘erotikós’, que se referia ao amor sensual e à poesia de amor.
Pornografia é representação, por quaisquer meios, de cenas ou objectos obscenos destinados a serem apresentados a um público e também expor práticas sexuais diversas, com o fim de instigar a libido do observador. O termo deriva do grego πόρνη (pórne), "prostituta", γραφή (grafé), representação. Quase sempre a pornografia assume carácter de actividade comercial, seja para os próprios modelos, seja para os empresários do sector.
Para mim, e ressalvo que se trata apenas da minha opinião enquanto leitora, desde que os textos em causa sejam eróticos e que não recorram ao uso excessivo do calão... então, como não publicá-lo num site de literatura, ainda para mais classificado como tal?
Como leitora, quero é encontrar algo que possa ler, com qualidade e que seja uma mais valia para mim, independentemente do tema que se aborde. Não será assim para todos leitores?

14.135

Foto de Niko Guido

Descobri hoje que nasci exactamente há 14.135 dias. Numa quarta-feira… bem, a parte de ter sido a numa quarta-feira eu já sabia. Os meus pais contaram-me. E também sei que nasci numa maternidade que já não existe, com uma médica fabulosa, chamada Laura Seixas. Mais tarde frequentei o Colégio Barreirense, que, curiosamente, era propriedade do pai da médica que me trouxe ao mundo
(entre os gritos da minha mãe que, dizem as más línguas, pedia que eu não nascesse – ao que a médica lhe respondeu – devias ter pensado nisso à 9 meses atrás.)
Ainda hoje me lembro do colégio onde andei até à 3ª classe e da professora que tive. A D Rogéria. Muito rígida, não admitia falhas mas era excelente a ensinar. Marcou-me pela positiva, afinal foi com ela que aprendi a ler e a escrever. Também me lembro do recreio, espaçoso, com sombras, árvores, amigos com quem brincar, vigilantes atenciosas e que não se importavam de brincar connosco … tudo o que precisamos para ser felizes quando somos pequenos. O meu avô, ou o meu pai, iam-me buscar ao colégio para poder almoçar em casa. Era feliz.
Quando tive de mudar para outra escola tive um desgosto que me marcou nos anos seguintes. Tudo estava, para mim, muito mal na nova escola. Fui para uns pavilhões pré-fabricados que, na altura, eram provisórios
(a minha filha, passados quase 30 anos tem aulas na mesma escola… nos mesmos pavilhões provisórios)
Nos anos que se seguiram, superei o desgosto, mas não a saudade. Mudei mais algumas vezes de escola. Nunca reprovei de ano, apesar de ter estado bem perto disso no 8º ano. Nunca foi uma aluna excelente. É curioso. Apesar de ter tido muitos professores diferentes a opinião deles sobre mim era sempre a mesma – demasiado faladora, muito inteligente, poderia ter melhores notas se estudasse.
Assim que pude, comecei a trabalhar no verão. Estar parada muito tempo não fazia (e ainda não faz) o meu género. Fiz muitas coisas nos verões da minha adolescência. Fui para a praia com as crianças duma creche, fiz inventário e vendi produtos de drogaria e materiais de construção civil, fiz contabilidade (foi aqui que ganhei o gosto pelo curso que tirei), numa papelaria, numa livraria, fui monitora num ATL de verão… foram diversos os trabalhos que fiz, todos com o gosto da descoberta e da aprendizagem. Todos eles foram úteis para me ajudarem a crescer profissionalmente.
Também entrei para os escuteiros. Um dia cheguei a casa e avisei a minha mãe que ia entrar para os escuteiros católicos e que ia ser baptizada. Não tinha sido baptizada em bebé porque os meus pais achavam que devia ser eu a decidir. Agradecerei sempre essa decisão, porque assim lembro-me bem da cerimónia do meu baptismo. Nos escuteiros aprendi ainda mais, sobre a amizade, civismo, educação. Sai uns anos mais tarde, regressei à poucos anos ao escutismo, mas sempre mantive os princípios escutistas como meus princípios pessoais. Foi também nos escuteiros que encontrei algumas amizades que, passados quase 25 anos, se mantêm com a mesma intensidade.
14.135 dias… já passaram pela minha vida vários amigos. Alguns que passaram pelos meus dias e que não ficaram, outros que passaram e foram ficando, outros que chegaram há pouco e valem tanto como os mais antigos. Todos eles, sem excepção, deixaram alguma marca.
14.135 dias depois de eu ter nascido, a família aumentou consideravelmente. Irmãs, marido, filhos, sogros, tios, tias, primos, primas, cunhados, cunhadas, sobrinhos, sobrinhas… mas, infelizmente e naturalmente, também faleceram algumas pessoas. O meu avô, os pais do meu tio, o meu sogro. De todos sinto saudades, mas acima de tudo, sinto muita falta do assobio do meu avô, quando nos queria chamar para comer aquelas torradas que todos adorávamos.
Depois de acabar o liceu passei a trabalhar a tempo inteiro. Ainda estava a estudar na faculdade quando comecei a trabalhar. Depois duns primeiros meses em que não gostava do que fazia, tive a sorte de mudar para um serviço que adoro, que é um desafio permanente e onde, felizmente, tenho colegas com quem me dou bem. Um ambiente de trabalho fabuloso, o que ajuda bastante.
Trabalhei e estudei ao mesmo tempo. Os dias eram passados no trabalho, o princípio da noite na faculdade. Demorei a acabar o curso mas acabei
(se calhar os professores tinham razão… teria bastado estudar para ser mais rápido. Ou, se calhar teria sido mais rápido, se não estivesse estado envolvida na associação de estudantes, no conselho pedagógico, no conselho consultivo e no conselho directivo do Instituto)
14.135 dias… de surpresas boas e más, de amores e desamores, de alegrias e tristezas, de desgostos, medos, receios, sonhos… dias que valeram a pena, que me fazem desejar que possa viver outros tantos.

Orgasmo

Foto de Ben Heys


Ser vulcão em erupção, explodir em ti…
Receber os teus montes e os teus rios.
Galgar o teu corpo como quem procura...
Perpetuar o instante em que entras em mim.

Gemer, sorrindo… contar as estrelas
Percorrer com as mãos, o musgo da pele.
Adormecer inebriada como se fosses a lua
Ser o isco perfeito… para o teu anzol…!


Este poema, que pode ser pequeno de tamanho, mas é grande em significado, foi escrito por uma grande amiga, a Vony Ferreira. A Vony escreve poemas, contos, romances, crónicas... uma panóplia de géneros, mas todos com qualidade. Conheçam mais da Vony no blogue http://vony-ferreira.blogspot.com/

Falso pudor

Foto de Per Johansson


Se pudesse abrir com adaga o peito,
Arrancaria daqui, estes versos ocultados,
E com eles, arderia em forte e intenso,
Motivo maior, que permeia meu brado!

Prossigo aquém das forças que tenho,
Sabendo, que neste mundo sou limitado,
Que perco e me convenço, sou ser efêmero,
Que nasce e ao crescer é sepultado...

Por timidez da vida, me rompi do rumo,
Maior, que me foi dado em escolta,
Não cuidei, por certo do meu próprio mundo...

E acabo, por tecer minhas revoltas,
Pois, quem neste pedaço de vida,
Nunca quis suas reais respostas?

Hoje trago-vos um soneto da Ledalge. O primeiro que ela publicou no site onde nos conhecemos, e, para mim, um dos mais bonitos dela.
Conheçam mais da Ledalge no blogue http://ledalge.blogspot.com/

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