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StoneArt Portugal

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Eu e os meus livros. Sejam bem vindos a esta minha casa.

StoneArt Portugal

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Eu e os meus livros. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Nós

Foto de Martin Camarena
Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
E a Cólera também andaram na cidade,
Que esta população, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas
(Até então nós só tivéramos sarampo).
Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!

Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.

Na parte mercantil, foco da epidemia,
Um pânico! Nem um navio entrava a barra,
A alfândega parou, nenhuma loja abria,
E os turbulentos cais cessaram a algazarra.

Pela manhã, em vez dos trens dos baptizados,
Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
Que triste a sucessão dos armazéns fechados!
Como um domingo inglês na city, que desterros!

Sem canalização, em muitos burgos ermos
Secavam dejecções cobertas de mosqueiros.
E os médicos, ao pé dos padres e coveiros,
Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!

Uma iluminação a azeite de purgueira,
De noite amarelava os prédios macilentos.
Barricas de alcatrão ardiam; de maneira
Que tinham tons de inferno outros armamentos.

Porém, lá fora, à solta, exageradamente
Enquanto acontecia essa calamidade,
Toda a vegetação, pletórica, potente,
Ganhava imenso com a enorme mortandade!

Num ímpeto de seiva os arvoredos fartos,
Numa opulenta fúria as novidades todas,
Como uma universal celebração de bodas,
Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,
Triste de ouvir falar em órfãos e em viúvas,
E em permanência olhando o horizonte em brasa,
Não quis voltar senão depois das grandes chuvas.

Ele, dum lado, via os filhos achacados,
Um lívido flagelo e uma moléstia horrenda!
E via, do outro lado, eiras, lezírias, prados,
E um salutar refúgio e um lucro na vivenda!

E o campo, desde então, segundo o que me lembro,
É todo o meu amor de todos estes anos!
Nós vamos para lá; somos provincianos,
Desde o calor de Maio aos frios de Novembro!

Tínhamos nós voltado à capital maldita,
Eu vinha de polir isto tranquilamente,
Quando nos sucedeu uma cruel desdita,
Pois um de nós caiu, de súbito, doente.

Uma tuberculose abria-lhe cavernas!
Dá-me rebate ainda o seu tossir profundo!
E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas,
Com que se despediu de todos e do mundo!

Pobre rapaz robusto e cheio de futuro!
Não sei dum infortúnio imenso como o seu!
Vi o seu fim chegar como um medonho muro,
E, sem querer, aflito e atónito, morreu!

De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo
Com tanta crueldade e tantas injustiças,
Se inda trabalho é como os presos no degredo,
Com planos de vingança e ideias insubmissas.

E agora, de tal modo a minha vida é dura,
Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos,
Que sinto só desdém pela literatura,
E até desprezo e esqueço os meus amados versos!

(Cesário Verde)

Isto

Foto de Ufuk Ozkan

Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir! Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa

Foto de Tea Cisic

Não sei se vá, se fique. Esta frase, usada por uma pessoa do jet set português tornou-se quase imagem da sua marca pessoal. Aliás, quem sabe de quem eu estou a falar, sabe que indeciso(a) é mesmo o que ele(a) é.
Muitas vezes sabemos exactamente aquilo que queremos. Mas, por força de circunstâncias várias, achamos que, o que queremos está errado e tentamos convencer-nos de que queremos outra coisa. Lembro-me, por exemplo, quando foi preciso escolher o curso universitário que ia tirar de ter estado indecisa. Contabilidade ou economia? A decisão não foi fácil. Eu sabia o que queria (contabilidade) mas o meu pai achava que eu devia tirar economia porque tinha mais futuro. Acabei por tirar contabilidade. E não me arrependi. Segui o coração em vez da razão.
Bem sei que o coração tem razões que a própria razão desconhece. E muitas vezes as razões da razão devem ser ouvidas. E é desta dúvida, qual das razões ouvir, que nasce a indecisão.
Eu? Bem, normalmente demoro a decidir o que quero. Mas quando decido, assumo e não volto atrás. Custa-me mais estar indecisa que assumir a decisão tomada. E até hoje ainda não me arrependi de nada que tenha feito. E faria tudo de novo. Porque foram essas decisões que tomei que fizeram com que eu seja o que sou hoje.

Nota
* O título desta crónica é da autoria de Adriana Falcão. Ainda o desafio da Amora.

Solidão é uma ilha com saudade de barcos

Foto de Andris Eglītis

Solidão. Ai está um sentimento que se pode contradizer a ele próprio. Podemos sentir-nos sós no meio de uma multidão, ou acompanhados estando sozinhos. Depende apenas de nós, da nossa forma de ser e de estar… mas também da forma como lidamos com as diversas situações. Depende, por isso, muito mais de nós do que de quem nos rodeia.
Sinto-me só. Uma queixa ouvida vezes sem conta. Ao que eu respondo – que fizeste para te sentires mais acompanhado? A tua ilha terá espaço para os barcos atracarem? Ou será que te afastaste, ao longo da vida, de tudo e todos e agora, que queres companhia, ninguém te quer acompanhar? Esforças-te para estar com os outros, ou esperas apenas que sejam os outros a quer estar contigo, sem que lhes dês nada em troca?
Eu? Eu gosto de estar acompanhada. Sempre. Com a família ou com os amigos. Sou uma ilha com muitos portos, com barcos sempre a chegar e a partir. Não os obrigo a ficar, nem a partir. Ficam enquanto querem. Partem quando chega a hora de partirem, na certeza, porém, que podem voltar sempre que queiram.
Gosto também dos meus momentos de solidão. De não ter ninguém por perto. Só eu e os meus botões. Sem pensar em nada de especial, apenas e só no bom que é estar só.
Claro que muitas vezes a solidão pode ser provocada por circunstâncias menos boas. Basta ver a solidão a que os velhotes são obrigados por familiares sem escrúpulos que os deixam abandonados num qualquer lar, muitas vezes sem condições. Ou os doentes abandonados pelas famílias nos hospitais. Mas sabem, muitas vezes, esses mesmos doentes ou esses velhotes, tomaram atitudes que levaram a que as famílias não queiram saber deles. Mas isso daria outra crónica…

Notas
* O título desta crónica é da autoria de Adriana Falcão. Estou a tentar responder a um desafio da Amora, que me deu algumas frases desta autora para eu analisar. Esta é a primeira.
* Para que não haja dúvidas ou más interpretações, creiam que uso o termo “velhotes” com o máximo carinho. É assim que trato a minha avó, a minha mãe, o meu pai e os meus tios. Trato-os por velhotes com todo o carinho que eles merecem.

Voz numa pedra

Foto de Jukka Tuohino

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa
nenhuma
nada está escrito afinal.

Mário Cesariny

Afrodite

Foto de Eric Larson

Formosa.
Esses peitos pequenos, cheios.
Esse ventre, o seu redondo espraiado!
O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido
das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado,
as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo,
o coto de um braço, o tronco robusto, a linha
cariciosa do ombro...
Afrodite, não chorei quando te descobri?
Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia
e de Roma!
Tantas figuras graves, de gestos nobres e de
frontes tranquilas, abstractas...
Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necrópole.
Era uma assembleia de amáveis espíritos, divagadores,
ente si trocando serenas, eternas e nunca
desprezadas razões formais.
Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo...
O descanso desse teu gesto!
A perna que encobre a outra, que aperta o corpo.
A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre.
E um fumo, uma impressão tão subtil e tão
provocante de pudor, de volúpia, de
reserva, de abandono...
Já passaram sobre ti dois mil anos?
Estranha obra de um homem!
Que doçura espalhas e que grandeza...
És o equilíbrio e a harmonia e não és senão corpo.
Não és mística, não exacerbas, não angústias.
Geras o sonho do amor.
Praxíteles.
Como pudeste criar Afrodite?
E não a macerar, delapidar, arruinar, na ânsia de
a vencer, gozar!
Tinha de assim ser.
Eternizaste-a!
A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne...
(Irene Lisboa)

Amizade

Foto de Antanas Strazdas

Nem os vendavais
afrontam os canaviais
nem as pragas
derrubam as vontades
nem todas contrariedades
(deste insano mundo)
destroem o nosso caminho.

E assim juntos conseguimos
ver a alegria das luas
sentir a força do sol
como salutares inocentes…

E na simplicidade do estar
em que nada queremos pedir
basta-nos dar,
um gesto sincero
num sorriso oportuno
sem pensar
na malícia de um outro olhar…

Como crianças
desfrutámos esta harmonia
da nossa vida exposta
sem rodeios
ou artifícios…

Sabes porquê?
porque sabemos o verdadeiro sentido
extraído, da palavra, com que brincamos
porque sentimos quem somos
e sem qualquer mácula
brindamos em alegoria
ao nosso estado fortificado…
Sabes?
Afinal tudo é tão simples
basta-nos, apenas, sermos amigos…

Paulo Afonso Ramos

Vida Submersa


Em passo cadente silencioso, pela berma do caminho, caminhavam os dois, o pai com os olhos postos no chão, como que tentando encontrar algo ia observando a terra escura, com pequenas lascas de xisto aqui e ali tentando não os pisar que eram como lâminas nos pés descalços e doridos de mais uma jorna de trabalho. Lembrava-se de ter feito aquele mesmo caminho com o pai com a idade do filho que levava pela mão falar com o pai do Luisinho, agora Sr. Luís Almeida para pedir o mesmo que ele ia agora pedir. O Artur, seu filho não podia mais ir á escola, estava em idade de trabalhar que a Maria José estava já prenha de novo e era já o terceiro a caminho – como caralho é que ela se foi esquecer das contas? - Cogitava com os botões. – Òh home, foi Deus que quis, que queres que faça? – Respondera-lhe a Maria José. Raios parta o Sôr Abade que lhes mete aquelas ideias na cabeça, que é pecado isto, é pecado aquilo… - Estugou o passo e disse ao rapaz – anda lá moço, não tarda nada é de noite e ainda temos que dar de comer á bicharada na volta -. O Artur apressou o passo na cadência imposta pelo pai, olhos postos no horizonte cujas ondas de calor enovelavam e o levavam a pensar que quando fosse grande iria ter um carro quando fosse preciso ir a casa do patrão, ou melhor nem ia precisar de ir a casa do patrão porque não ia precisar de trabalhar para ele como todos os da aldeia. Ia ter dinheiro para o carro, para os dentes do pai, para tratar aquela doença que a mãe anda a esconder do pai – dizes ao teu pai levas uma estalada que te parto os dentes – dissera-lhe a Maria José enquanto escarrava no lenço uma viscose de cor vermelha e o metia apressadamente na manga da camisa, a tuberculose é maleita do diabo, dizia-se. O Sôr Abade do alto do seu púlpito dizia que era uma doença enviada por deus para castigar aqueles que pecavam e cometiam o pecado da carne em desrespeito pelas indicações que o Santo Padre dava. E a Maria José não percebia, nunca tinha deixado o seu António usar aquelas modernices que se vendem nas farmácias da cidade, fizera sempre o que o Sôr Abade mandava e como é que Deus lhe mandara aquilo? O Artur corria agora atrás de um esquilo indiferente ás lâminas de xisto que lhe feriam os pés – Tu vais cair rapaz, aleijas-te e o Sr. Luís não te dá emprego, caralho… - Disse-lhe o pai. A casa apareceu de repente ao fim da curva do caminho, contornaram o alvo muro até encontrarem o portão onde desembocava a estrada de paralelo que vinha do centro da aldeia sempre desenhada por carvalhos frondosos que o Avô do Sr. Almeida já mandara plantar há quase 90 anos, para o proteger da canícula do verão nas suas idas e vindas de charrete. Mas agora haviam os automóveis e o do Sr. Almeida lá estava do outro lado do portão com o motorista a passar-lhe um pano. – Que queres daqui Tónio? Perguntou-lhe o motorista garboso no seu uniforme.– Vinha para falar com o Sr. Luís Almeida por causa aqui do moço, sabe como é, já ‘tá em idade…- Òh Idalina…vê se o Senhor pode atender aqui o Tónio da Zefa. Berrou o motorista para uma sopeira que passava apressadamente para o interior da casa com um cesto de roupa acabado de apanhar do varal.O Senhor assomou á entrada da casa, barriga proeminente, com as mãos nos suspensórios, um palito no canto da boca, um bigode farfalhudo com fios de bacalhau pendurados, lábios semi cerrados para dar a demonstrar que não gostava que lhe interrompessem a merenda, e logo agora que a punheta de bacalhau lhe estava a saber tão bem.– Que queres Tóino? O António tirou apressadamente o chapéu, olhou de soslaio para o Artur e deu-lhe um tabefe no cachaço que se apressou a fazer o mesmo- Era pa falar aqui do meu moço, Sr. Luís, o rapaz fez a terceira classe, e já vai sendo tempo de começar a trabalhar que eu cá também não aprendi a escrever e cá vou levando a vida. Ele é inteligente o moço, se calhar até nos escritórios da fábrica grande lhe podia fazer jeito.- Òh Tóino, de inteligentes aqui na terra já basto eu, ele que idade tem? - Desculpe Sr. Luís, não quis ofender o senhor, mas não se podia arranjar alguma coisita para ele? É que a minha Zefa, já, já t’aí a parir e dava jeito mais algum lá em casa. Só pa parteira o Sr Luís sabe como é…- Vós fodeis como coelhos, não tendes juízo é o que é – vociferou o Senhor – Chega cá moço, mete aqui as mãos entre as grades para te ver. O Artur olhou para o pai que lhe fez um sinal de assentimento, chegou-se às grades do portão, e mostrou as mãos ao Senhor.- Amanhã, às seis da manhã levas o moço ao chefe de turno da fábrica e dizes que vais de meu mando, mas olha lá, o moço vai ter que fazer os dois turnos qu’é muito novo e não dá rendimento…Respondeu e virou costas ignorando os “obrigados” do António e os “Deus lhe pague”.O António fez o caminho de volta, lentamente, cara tisnada pelos fornos da fábrica de tijolos, pegou na mão de Artur, pequenina e franzina no meio da sua grossa e calejada, lembrou-se de quando na idade dele fazia o trabalho de cinzeiro na recolha do carvão não ardia e era reutilizado para os fornos… O calor sufocante, o carvão incandescente que teimava em se colar ás maos, a chibata do chefe de turno…- Puta de vida.


(José Alberto Valente)

Iremos juntos sozinhos pela areia

Foto de Luís Faria

Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

As palavras que disseres e eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como o linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.

Sophia de Mello Breyner Andersen

Cântico negro

Foto de Franco Calegari

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio

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