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StoneArt Portugal

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Eu e os meus livros. Sejam bem vindos a esta minha casa.

StoneArt Portugal

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Eu e os meus livros. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Pequena carta à minha mãe


Foto de Linda Veit

Mãe, hoje o dia é teu,
Este dia em que és criança
Feliz, de brilho no olhar,
Coração recheado de esperança
Em tudo o que a vida prometeu.

Não fui o filho que querias,
O doutor, juiz, professor,
Mas sou um filho que te ama,
Que sente ainda o teu calor
Naquele sorriso que me fazias.


Fernando Saiote

Será apresentado no próximo dia 29 de Novembro, pelas 18.00 horas, a obra poética de Fernando Saiote intitulada “Pedras Soltas”. O evento decorrerá no Auditório da Junta de Freguesia de Nossa Senhora da Vila, em Montemor-o-Novo. Obra e autor serão apresentados pelos Prof. João Luís Nabo e Prof. Vítor Guita.

Supercalifragilisticexpialidocious

Ontem chovia e a minha filha, ao pegar no chapéu-de-chuva, disse-me “oh mãe, ainda levanto voo com o chapéu, por causa do vento”. Lembrei-me logo da Mary Poppins. Sabem, aquele filme muito antigo, da década de sessenta... do século passado (como me sinto velha ao pensar assim...).
Lembrei-me ontem do filme e hoje, numa espécie de revolta familiar, decidi que íamos ver parte do filme enquanto jantávamos. Revolta familiar porque cá em casa a regra é – não há televisão aos dias de semana. Mas hoje, por causa da Mary Poppins, contornamos as regras e sentamo-nos a ver o filme.
O meu marido achou que ia ser um fracasso. Um filme com quase 40 anos a tentar captar a atenção de duas crianças de sete e cinco anos? Sem super heróis, falado em inglês... eles não iam aguentar nem dez minutos.
Sentamo-nos os três, cada um com a sua pizza à frente (já que se contornam as regras, ao menos que se contorne tudo), e lá começou o filme.
Eu, que conheço o filme de trás para a frente, ri-me como se o estivesse a ver pela primeira vez. Aquela cena em que o Comandante dá as 18 horas com um tiro de canhão e todos têm de ir aos seus lugares para segurarem os tarecos da casa fez-me sentir uma criança de novo. Os meus filhos, que nunca tinham visto o filme, estavam deliciados.
Claro que as cenas se foram seguindo, com mais ou menos magia... desde a mala de viagem da Mary Poppins donde saem candelabros, espelhos ou plantas, à viagem pelo quadro que termina quando começa a chover, passando pela corrida de cavalos, que termina com a canção supercalifragilisticexpialidocious.
Quando acabamos de jantar, e porque amanhã é dia de aulas, tive de desligar o filme antes de ter terminado. Mas os meus filhos continuaram a quer saber mais sobre a Mary Poppins. Acho que esta noite, em vez de terem os sonhos habituais com os super heróis do momento, vão sonhar com aquela que foi uma das minhas heroínas em criança. E que bem que me sinto por saber que eles gostaram. Que um filme tão antigo, com pouquíssimos efeitos especiais (na óptica dos dias de hoje, claro) consegue continuar a encantar crianças, tal como o fez na altura da estreia. Hoje sinto-me supercalifragilisticexpialidocious. Porque, na companhia dos meus filhos, pude voltar a ser criança.
Amanhã, quem sabe, iremos ver o Música no Coração...

Se as minhas mãos pudessem desfolhar

Foto de Irina Todorova

Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranquila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!!
(Garcia Lorca)

Brisas do Mar


Quadro a óleo pintado por Helena Paz

Embriaguei-me
nos pensamentos
nas palavras
nos sentimentos…
Senti
o cheiro de flores
que chegam
de um mar
verde de esperança.
Abracei
essa brisa
e entreguei-me
à sedução das palavras.
Fecho os olhos
e adormeço… serena.

Vanda Paz


Com a chancela da Edium Editores, no próximo dia 23 de Novembro, pelas 15.00 horas, no Museu do Vinho da Bairrada em Anadia, será apresentada a obra “Brisas do Mar” da poetisa Vanda Paz. A autora, enóloga de profissão, nasceu em Lisboa em 1970 e reside na Anadia. A apresentação estará a cargo de António Paiva. A 21 de Novembro, sexta-feira, pelas 21 horas, a obra será pré-apresentada em Santarém no auditório da Escola Superior Agrária.

Pedro e o Lobo



Foto de Karen Seagle

Lembram-se da história de Pedro e o Lobo? Um conto infantil, escrito por Sergei Prokofiev, e que nos traz a história de Pedro, um pequeno pastor que vivia afastado dos outros meninos da aldeia onde vivia. Um dia Pedro, por se sentir sozinho, resolve chegar à aldeia e dizer que vinha um lobo a caminho para comer os animais. Toda a aldeia se mobiliza contra o dito lobo… que não aparece. Pedro tinha mentido porque queria atenção. Chamado à atenção promete não voltar a fazer. Só que foi sol de pouca dura e pouco tempo mais tarde volta a repetir. Grita que vem um lobo a caminho, a aldeia junta-se em defesa dos seus animais… mas de lobo nem sinal. Mais uma vez Pedro é repreendido pela sua atitude e compromete-se a não fazer. Só que fez. Fez mais uma, mais duas…. Até que, um dia, um lobo aproxima-se mesmo do rebanho que Pedro guardava. Pedro, assustado, corre até à aldeia a pedir ajuda… mas ninguém na aldeia acredita nele. Acham que é mais uma mentira de Pedro para chamar a atenção. Quando Pedro volta para o seu rebanho, já a alcateia tinha matado quase todo o rebanho.
Num só conto Prokofiev traz-nos várias lições de moral. Primeiro que não devemos mentir. Se mentirmos, um dia podemos dizer a verdade e ninguém vai acreditar em nós. Por outro lado, e mais grave ainda, é quer chamar a atenção para nós próprios em detrimento de tudo o que nos rodeia. Um dia essa necessidade de chamar a atenção pode levar-nos a perder todo o que temos.
Um conto antigo, mas intemporal.
Vejamos vários exemplos de como esta história devia ser interiorizada por todos, sem excepção.
- Vou deixar de cantar - Sou fã de Pedro Abrunhosa. Nos seus primeiros tempos, fui a quase todos os concertos dele. Num dos concertos Abrunhosa anunciou que ia deixar de cantar e que o último concerto que ia dar seria no Terreiro de Paço, uns meses mais tarde. Nos tempos que se seguiram a este anúncio, os fãs foram enviando cartas (que ele publicou), foram feitos vários pedidos para que continuasse, enfim, as atenções centraram-se nele. Fui ao concerto anunciado como último e a última frase que ele disse foi – Adeus e até sempre. Ficamos convencidos que tinha sido o último mesmo. Ora bem, isto passou-se há mais de dez anos e, de lá para cá, já saíram mais dois ou três cd’s de Pedro Abrunhosa. Se hoje ele voltar a dizer que vai deixar de cantar… acham que alguém vai acreditar?
- Vou cortar os pulsos – A primeira vez que é dito, amigos e familiares ficam em cuidados, tentam perceber porquê, tentam demover, dar apoio… em suma, dão atenção. Se as ameaças inconsequentes se mantêm, aos poucos, e porque também tem vida própria, com os seus próprios problemas, amigos e familiares deixam de ligar… até ao dia em que até pode ser verdade e já ninguém vai ouvir.
Quem me conhece sabe que uso, com frequência, a seguinte expressão – vou ali matar-me, já volto. Digo-o sempre que estou irritada, com algum problema que, numa primeira análise, é complicado, ou quando vejo coisas que me deixam com comichão na ponta da língua. É claro que, se volto depois, é porque não me vou matar. Certo? Todos sabem disso e até há quem me responda – vai lá que eu espero aqui. Não demores.
Respeito-me demasiado para fazer ameaças que não pretendo cumprir. Aliás, respeito-me demasiado para não fazer ameaças, ponto final. Quando tomo uma decisão, tomo-a em plena consciência e não aviso. Faço. Respeito-me. Respeito‑vos. E tomada a decisão, não volto atrás. Posso arrepender-me. Mas fi-lo e assumo as minhas opções. Sem histórias. Sem invenções. Sem mentiras. Mesmo que não acreditem em mim. Em suma, não sou o Pedro nem vejo lobos onde não os há. Não quero, não creio e nem aceito os Pedro´s desta sociedade de lobos solitários...

As palavras

Foto de Alex Caranfil

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio Andrade

Quando me amei de verdade

Foto de Terje Røstum

Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exacto.
E então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome… Auto-estima.
Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.
Hoje sei que isso é… Autenticidade.
Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de… Amadurecimento.
Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
Hoje sei que o nome disso é… Respeito.
Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável… Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama… Amor-próprio.
Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projectos megalómanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é… Simplicidade.
Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei menos vezes.
Hoje descobri a… Humildade.
Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de me preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é… Plenitude.
Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é… Saber viver!!!
Charlie Chaplin

Procuro-te (a ti)

Foto de Samiran Paul

Procuro nos teus braços
Ouvir o silêncio do teu sussurro
Tua voz terna e meiga em murmúrios
De riacho na pedra

Procuro na tua pele
Visões de planície sem fim
Suave feno agitado pelo vento
Em afagos perturbadores

Procuro nos teus seios
Generosidade de fêmea
Serras de cumes gémeos
Deslizando para abismos

Procuro no teu ventre esse abismo
Que me deslumbra em movimentos
De mar encapelado, espuma orgástica
Que bate em areia dourada.

Procuro tuas ancas que enfim me aconchegam.
Teus olhos de mar dizem-me
O que os teus lábios calam.
Amor de horizontes, amor sem fim.

(José Alberto Valente)

Estava eu sentado, perto do mar

Foto de Glen Parker

Estava eu sentado, perto do mar, a ouvir com pouca atenção um amigo meu que falava arrebatadamente de um assunto qualquer, que me era apenas fastidioso. Sem ter consciência disso, pus-me a olhar para uma pequena quantidade de areia que entretanto apanhara com a mão; de súbito vi a beleza requintada de cada um daqueles pequenos grãos; apercebia-me de que cada pequena partícula, em vez de ser desinteressante, era feito de acordo com um padrão geométrico perfeito, com ângulos bem definidos, cada um deles dardejando uma luz intensa; cada um daqueles pequenos cristais tinha o brilho de um arco-íris... Os raios atravessavam-se uns aos outros, constituindo pequenos padrões, duma beleza tal que me deixava sem respiração... Foi então que, subitamente, a minha consciência como que se iluminou por dentro e percebi, duma forma viva, que todo o universo é feito de partículas de material, partículas que por mais desinteressantes ou desprovidas de vida que possam parecer, nunca deixam de estar carregadas daquela beleza intensa e vital. Durante um segundo ou dois, o mundo pareceu-me uma chama de glória. E uma vez extinta essa chama, ficou-me qualquer coisa que nunca mais esqueci que me faz pensar constantemente na beleza que encerra cada um dos mais ínfimos fragmentos de matéria à nossa volta.
(Aldous Huxley)

No princípio era o Sol

Foto de k ng

No princípio era o Sol, o primado do Sol
da resplandecência. A essência
da luminosidade pré-incrita
em desassossegos acordados
de um bando de aves, elevados
num canto divino em cantos ermos e repartidos
e logo povoados na veia dos verbos e dos sentidos.

No princípio era o abraço a explodir virginal
da madre terra em destemperos de gestos primitivos,
em mãos revoltas, de asas soltas,
sem corpos, de um amor abstracto,
sem palco, de feição feérica, de tão ardente.
E logo, logo o medo, e das neves o branco,
e o espanto
e o pranto desordenado
do ar fluido aprisionado em redes irresolutas,
em redes densas.

Depois as crenças, as lutas, a desordem
da veste e do posto, na perda acesa, na insolência
maior de um querer e não querer, no amortalhar
das palavras sem sangue,
sem massa, sem carne, a dissiparem-se
na insolvência de luas e trigos virulentos,
em cores plúmbeas de Sol,
já pétreas, pretéritas e tão presentes.

No princípio era o Sol e as palavras,
e o sonho e a utopia. E todas juntas, em agitações rítmicas
de corpos celestes, de astros alongados, estiolados em cio
na grama, no chão e na chama. Fixados de tão agrestes.

No princípio era o Sol, desenhado redondo de tão exacto
e no final o risco impreciso do precipício do gesto


Mel Carvalho
Com a chancela da Edium Editores será apresentada a 8 de Novembro a mais recente obra da poetisa Mel de Carvalho, “No princípio era o sol”; o evento terá lugar no Salão Nobre do Paço do Sobralinho (concelho de Vila Franca de Xira) pelas 16.00 horas. Obra e autora serão apresentadas por a Prof. Dra. Maria de Lurdes Fonseca e pelo poeta Paulo Afonso Ramos. Mel de Carvalho nasceu em Lisboa no ano de 1961; é licenciada em Sociologia do Trabalho pela Univ. Técnica de Lisboa prosseguindo em doutoramento pela Universidade Nova de Lisboa. Publicou em 2007, “Sibilam pedras na encosta”; regista também diversas participações em publicações antológicas.

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