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StoneArt Portugal

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Eu e os meus livros. Sejam bem vindos a esta minha casa.

StoneArt Portugal

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Eu e os meus livros. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Desespero

Foto de Kenvin Pinardy


Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o espermen que te dou, o desespero.

Ary dos Santos

O pirata e o bombeiro

Foto de Gazzaroli Claudio

Ter um filho pirata, como o meu, é sinónimo de problemas, uns atrás dos outros. A mente dele anda bastante mais à frente que qualquer um dos adultos que o rodeia (e, ás vezes, acho que até à frente dele próprio). À mente, juntem-se umas mãos nervosas e prontas a mexer em tudo e temos um pequeno pirata pronto a meter-se (e a meter-nos a todos) em sarilhos.
Daria quase um livro todas as aventuras e desventuras que já aconteceram por ele ser assim. A primeira aventura digna de nota foi quando ele tinha 14 meses. A nossa amiga e vizinha da frente estava a falar comigo no patamar das escadas e ele resolveu passar ao lado dela e fechar a porta de casa dela, com ele – e as chaves – do lado de dentro: só com a intervenção da polícia e dos bombeiros é que se conseguiu abrir a porta para o tirar de lá.
Uma das últimas foi, sem dúvida, a que poderia ter tido consequências mais graves.
Conseguiu encontrar, perdidos lá por casa, uns fósforos daqueles usados normalmente para acender as lareiras e levou para o quarto. Passadas umas horas descobrimos que os lençóis da cama estavam queimados e que, dentro das gavetas de plástico, onde estão os seus desenhos, estavam vários fósforos usados.
Depois de passar o primeiro susto, resolvemos, eu e o pai, manter a calma e explicar-lhe quais os riscos das brincadeiras com o fogo. Como me pareceu insuficiente, falei com um amigo, sub-chefe dos bombeiros, e marcamos uma visita ao quartel.
Fomos os quatro, acompanhados do sub-chefe (que teve a paciência de esclarecer todas as dúvidas) e do Yuli, um cão treinado para a busca e salvamento. Pudemos ver os carros dos bombeiros, as ambulâncias e perceber exactamente para que servia cada um deles.
O meu pirata teve ainda a oportunidade de conhecer casos em que as crianças tinham feito o mesmo que ele e que não tinham tido a mesma sorte.
Mas, além da componente pedagógica que, só o tempo poderá dizer se resultou, ou não, esta visita teve, para mim, o condão de aumentar a minha admiração pelos bombeiros, principalmente pelos voluntários. Homens e mulheres que prescindem do seu tempo livre, do tempo que podiam dar às famílias para protegerem as matas e florestas, para ajudar quem está doente, socorrer outros em caso de acidentes… e, que, em troca, recebem, na maioria dos casos, a indiferença da população que os rodeia. Noutros casos (felizmente mais raros) chegam a ser mal tratados por quem tentaram socorrer.
Porque é uma entidade sem fins lucrativos, porque nos peditórios e sorteios a população não colabora, porque a Câmara, que tem a seu cargo a protecção civil, pouco os ajuda, tem de ser os próprios a acudir aos “fogos” financeiros dentro da corporação. Vêm-se, literalmente, gregos e troianos para fazer face a todas as despesas que estão inerentes à sua actividade mas nada disso lhes retira a vontade de estarem sempre alerta para ajudar a população.
Assim estivesse a população alerta para as necessidades dos bombeiros.

Reverência ao destino

Foto de Richard Eijkenbroek



Falar é completamente fácil, quando se tem palavras em mente que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.

Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e reflectir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.

Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso.
E com confiança no que diz.

Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação e saber o que fazer ou ter coragem para fazer.

Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.

Fácil é mentir aos quatro ventos o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.

Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, mais uma vez, isso é difícil.

Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"
Difícil é dizer "adeus", principalmente quando somos culpados pela partida de alguém de nossas vidas...

Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo como uma corrente eléctrica quando tocamos a pessoa certa.

Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois. Amar e se entregar, e aprender a dar valor somente a quem te ama.

Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência, acenando o tempo todo, mostrando nossas escolhas erradas

Fácil é ditar regras.
Difícil é segui-las.
Ter a noção exacta de nossas próprias vidas, ao invés de ter noção das vidas dos outros.

Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta ou querer entender a resposta.

Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar ou chorar de rir, de alegria.

Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma, sinceramente, por inteiro.

Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro.

Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefónica.
Difícil é ocupar o coração de alguém, saber que se é realmente amado.

Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.

Eterno, é tudo aquilo que dura uma fracção de segundo, mas com tamanha intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata.

Carlos Drummond de Andrade

A decisão de decidir

Foto de James Bogue


“Tomar decisões era, para mim, a parte dolorosa, a parte que me afligia, mas, assim que a decisão estava tomada, eu simplesmente a levava até ao fim – normalmente, sentindo alívio pelo facto da escolha ter sido feita”


Estava eu a deliciar-me na leitura do livro “Crepúsculo” da Stephenie Meyer, ali, num jardinzito mesmo ao lado do meu local de trabalho
(que tem destas coisas boas – um jardim ao pé, um café onde me guardam o almoço e uma hora inteira para poder ler por um bocado)
quando me deparei com a frase com que iniciei esta crónica. Se bem que o livro é sobre vampiros, e, ao que parece, o Edmund até lê pensamentos, não me parece que tenham lido o meu. Mas, o que é certo, é que é exactamente assim que eu penso (e, já agora, ajo).
Quando decido alguma coisa, seja lá sobre o que for, vou até ao fim. Antes, peso os prós e os contras, e não dou nenhum passo em qualquer sentido sem que a decisão esteja tomada.
Assim que decido e que assumo o que decidi para comigo, sinto-me, de facto, aliviada. E tento, na medida do possível, levá-la até ao fim. Claro que não estou a falar de coisas corriqueiras, como “que fazer para o jantar” ou “que livro vou ler a seguir”
(se bem que já sei que o livro que vou ler a seguir irá ser a continuação deste. Já do jantar logo vejo o que me apetece… ou até pode ser que esteja feito quando chegar a casa)
estou sim a falar de decisões importantes, que me possam afectar, positiva ou negativamente, e cujas consequências possam perdurar no espaço e no tempo. São essas que me levam a passar por um período doloroso, seguido do alívio pela escolha feita. Mesmo que essa escolha, por qualquer razão, seja contrária ao que eu pensava que seria a melhor escolha noutra altura qualquer. Até porque crescer e evoluir é também mudar de opinião e assumir essa mudança.
Duma forma franca e honesta, prefiro uma má escolha a uma indecisão. Parece que a Isabella também.


Nota – Isabella e Edmund são as personagens principais da saga “Luz & Escuridão” escrita por Stephenie Meyer. A história é contada na primeira pessoa, Isabella, a quem “pertence” a reflexão inicial.

Indigentes



Todos os dias, no caminho para o meu emprego, passo por uma das zonas de Lisboa onde vivem mais indigentes – pessoas a quem a vida não sorri e que se vêem obrigadas a viver na rua.
No Terreiro de Paço, mesmo por debaixo das arcadas, lá estão eles. Nas suas camas feitas de cartão, ou, nalguns casos, com sacos-cama ou cobertores, já roçados e gastos de tantas noites, por certo, mal dormidas.
Todas as manhãs, algumas pessoas fazem a distribuição do pequeno-almoço. Uma sandes e uma garrafa com leite ou chá. Para muitos deles está será a única refeição do dia. À hora que passo está a distribuição a meio. E se alguns se mantêm nas camas enquanto comem, outros levantam-se, tentam fazer a sua higiene pessoal com a água que recolheram em garrafas de plástico e arrumam os seus poucos pertences dentro de caixas, antes de se sentarem, com a dignidade que lhes resta, para comer.
Tentam, quase todos eles, apesar das condições adversas em que vivem, fazer uma vida dita (quase) normal. Há quem vá buscar os jornais gratuitos para poder ler e saber o que se passa no mundo, há quem jogue às cartas e até quem ouça música num qualquer leitor portátil – quem sabe se não será o único bem que tem da vida anterior.
Uma das pessoas que por lá está é uma senhora de idade que pouco anda. São então os restantes que a ajudam a chegar para a sombra quando é preciso, ou lhe vão buscar alguma coisa que necessite. A solidariedade entre o grupo é espantosa. Ou pelo menos assim parece a quem passa.
São pessoas sem outros bens que não sejam aqueles que têm consigo. Alguns, não materiais, que normalmente em outras circunstâncias se esqueceriam, tal como nós nos esquecemos que os temos. São pessoas sem rendimentos que não sejam as esmolas que lhes vão deixando. No entanto, tentam, por todos os meios, manter-se limpos e arrumados.
Quando passam, na televisão, casos de pessoas pobres que vivem em casas sem condições, muitas vezes o que me salta à vista não são as faltas de condições da casa mas sim a falta de limpeza. Falta de limpeza, como me mostram todos os dias os indigentes que vivem no Terreiro de Paço, não significa pobreza. E o inverso também é verdade.
Cada dia que passo pelo Terreiro de Paço renovo a lição que aprendi no primeiro dia que os vi – podemos perder tudo, menos a dignidade. Essa não há quem nos tire.
E é, também, com a realidade destes indigentes que ganho forças para lutar, agir e contemporizar. Onde na memória se grava que a dignidade não tem estatuto social.

Autopsicografia

Foto de Charalampos Mavrommatis

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
Fernando Pessoa

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