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Stone Art

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Na sua idade não há nada a fazer

O Sr Carvalhal tem 97 anos. Num mundo ideal, estaria a gozar a sua reforma, rodeado dos filhos, dos netos e até, quem sabe, dos bisnetos. Não seriam muitos mas os bastantes para que ele sorrisse e não tivesse de se preocupar com nada.

Infelizmente o Sr Carvalhal não vive num mundo ideal. No mundo em que o Sr Carvalhal vive - no Centro de Lisboa - ele tem de se levantar todos os dias às 5h30 para recolher os caixotes do lixo. Porque, aos 97 anos, o Sr Carvalhal ainda é o porteiro do prédio onde vive e é ele que assegura que o lixo é colocado, diariamente na rua e depois recolhidos os caixotes.

Em vez de filhos, netos e quem sabe bisnetos, o Sr Carvalhal está sozinho. Tem um sobrinho, algures neste planeta, que não vê há quase 10 anos. Todos os dias são iguais para ele. Não há Natal, Passagem de Ano ou aniversário. Só se apercebe dessas datas porque os que passam por ele lhe desejam uma boa quadra festiva.

Todas as sextas feiras, quando me despeço dele, penso como será o fim de semana dele, sozinho em casa. À segunda feira, quando o vejo sentado na sua secretária na entrada no prédio fico satisfeita. Todos os dias conversamos um bocadinho quando chego.

Na segunda, quando lhe perguntei como tinha sido o fim de semana disse-me que tinha desmaiado em casa. Fiquei aflita. Então Sr Carvalhal, e quem deu consigo? O Alfredo?

(Eu e o Alfredo somos o contacto de emergência dele nos Hospitais. O Alfredo tem a chave de casa dele e, de vez em quando, vai lá a casa ver como ele está. Principalmente quando ele não atende o telefone)

Não menina, não foi o Alfredo. Eu é que acordei passado um bocado, levantei-me e aqui estou. Então Sr Carvalhal, e quando é que vai ao médico. Na quinta, menina, vou na quinta.

Quinta foi ontem.

De manhãzinha cheguei ao prédio e quando olhei para a secretária tive um baque. O Sr Carvalhal estava de olhos fechados e cabeça tombada. Assustei-me mas, felizmente, tinha apenas adormecido.

Quando o vi à tarde perguntei-lhe: então Sr Carvalhal, que lhe disse a médica? Olhe menina, para além do resto, também tenho pedras nos rins e o fígado inchado. E que lhe mandou a médica fazer? Nada menina, disse-me apenas que, na minha idade, não há nada a fazer...

Fiquei sem palavras, na altura. E continuo sem palavras... Que mundo é este em que a velhice é tratada desta forma?

A Princesinha

A Princesinha de Frances Hodgson Burnett

Reeditado em 2013 pela Oficina do Livro
ISBN: 9789897410826
 
Sinopse
"Alguma coisa surgirá, se eu pensar e esperar um pouco. A Magia dir-me-á — afirmou numa voz suave e expectante." Sara Crewe, uma aluna excepcionalmente inteligente e imaginativa do Colégio de Miss Minchin, fica devastada quando o pai morre. Sem dinheiro, Sara é rebaixada, humilhada e forçada a trabalhar como criada. Mas a história não acaba aqui e o seu destino reserva-lhe a felicidade.
 
A minha opinião
Há livros que nos trazem memórias. Que nos lembramos deles sempre que falamos em livros. E depois há livros cuja história entranha em nós mas que nos esquecemos do nome. Quando era pequenita (e não vale dizerem-me que continuo a ser pequenita, eu já sei que sou a mais pequena cá de casa), li um livro sobre uma menina de sete anos que nasce na Índia e que o pai a manda estudar em Londres num colégio interno. A mãe tinha morrido no parto e Sara estava habituada a ser só ela e o pai. Sara, apesar da idade, tem bastante maturidade e é bastante inteligente. Quando entra no colégio, rapidamente se torna a líder natural das alunas, até porque, apesar de ser a mais rica de todas, Sara é humilde e faz questão de ajudar as colegas. Ao contrário das outras alunas que olham as criadas da copa com desdém, Sara vê nelas crianças como ela que nasceram, por acidente, noutro extracto social e que, por isso, devem ser ajudadas. Mas no dia em que Sara comemora o seu décimo primeiro aniversário chegam as más noticias. O pai morreu na miséria, e, sem outra família ou amigos, Sara é obrigada a ficar no colégio de Miss Minchin como criada de copa, uma escrava para todo o serviço. Para Miss Minchin é a oportunidade que sempre esperou para humilhar Sara. Só que Sara não é uma criança normal e não cede apesar de todas as contrariedades e de todo o sofrimento. E um dia é recompensada por isso.
Sim, eu lembrava-me tantas vezes desta história. Das personagens. Da educação da Sara, apesar de lhe fazerem a vida negra. Da forma como Sara enfrenta as adversidades sempre com um sorriso, apesar, por dentro, estar a sofrer. Mas não me lembrava do livro, do autor, da capa.
Até que um dia descobri tudo isso. E não descansei enquanto não o comprei. E aqui um obrigado do tamanho do Mundo à M* que o encontrou, comprou e me mandou. Confesso que a alegria de o voltar a ter nas mãos só pode ser comparada à alegria de o reler. Demorei menos de um dia a acabá-lo (bom, pode ser também porque passei a manhã nas finanças à espera de ser atendida, mas isso agora não vem ao caso) e que bem que me soube reler tudo isto e perceber que, 30 e tal anos depois, continuo apaixonada por este livro.