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Stone Art

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Não gosto de casas frias

Vou ferir susceptibilidades...
Não gosto de casas assépticas. Casas que não parecem lares. Que parecem saídos do catálogo Moviflor. Sem cabelos no chão. Sem areias na tijoleira. Sem almofadas fora do sítio. Casas sem livros espalhados pela sala. Pela casa de banho. Pelos quartos. Casas que cheiram a lixívia. Sem nódoa. Sem chinelos perdidos nos tapetes.
Casas com os tupperwares por ordem e sem brinquedos perdidos pelo chão.
Com tudo lavado, arrumado, higienizado. As casas de método. Sem espaço para o desvio. Para o erro. Para a linha fora do sítio. Sem perdão a gavetas abertas.
Não gosto de casas frias. Sem vida. Cheias e sem vida.

(Rita Marrafa de Carvalho)

Triplo

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Triplo de Ken Follett

Editado em 2013 pela Editorial Presença

ISBN: 9789722350334 

Sinopse

No ano de 1968, Israel esteve por detrás do desaparecimento de 200 toneladas de urânio, material destinado a dotar o Egito da bomba atómica com a ajuda da União Soviética. Contudo nunca se conseguiu determinar como é que um carregamento daquele minério, suficiente para produzir 30 armas nucleares, desapareceu no mar alto sem deixar provas que comprometessem Israel. Follett pegou nesta enigmática ocorrência e criou a partir dela um thriller único, onde um suspense de alta voltagem se combina com factos históricos. 

A minha opinião

Primeiro livro lido no Clube da leitura organizado pela Dona Pavlova de onde tambem fez parte a Joana. Tratando-se de Ken Follet – um dos meus escritores favoritos – dificilmente me iria desiludir.

Mais uma vez, a história real mistura-se com a ficção. KF pegou num acontecimento histórico – o desaparecimento de 200 toneladas de urânio, provocado por Israel – e romanceou o resto, a forma como tal aconteceu.

Nathaniel é um judeu que sofreu horrores nos campos de concentração. Quando a segunda guerra mundial termina, Nathaniel vai estudar para Oxford, e conhece a mulher do professor Ashford por quem se apaixona. Cortone, um mafioso italiano que deve a sua vida a Nat visita-o na Universidade tendo a oportunidade de conhecer Eila, acabando, ambos, por descobrir que Eila é amante de Yasif Hassan.

Uns anos mais tarde, Nat pertence aos serviços secretos Israelitas e é incumbindo de roubar urânio para que Israel possa construir uma bomba atómica para que fique em pé de igualdade com o Egipto. Ao fazê-lo, acaba por reencontrar Hassan e Rostov, que conheceu em Oxford bem como Suza, a filha de Eila e Ashford.

O roubo do urânio terá de acontecer sem que a Eurotron – a entidade que controla a circulação de urânio na europa – se aperceber mas também sem por a vida de Nat em risco. Será que é possível?

Uma trama bem ao jeito de Follet – espiões de dupla face, espiões rígidos e o amor que tudo vence – ingredientes que, mais uma vez, fazem deste livro uma leitura bastante aprazível, sendo certo que o assalto (não interessa ao quê) é um dos momentos mais intensos e que me obrigou a quase me escaldar ao sol porque não consegui interromper a leitura enquanto o dito não acabou. Quando tal acontece… é porque o livro vale mesmo a pena, mesmo quando o final é previsível.

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Amamentação

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 (foto da campanha A Mãe Decide da Associação Bairro do Amor)

Tenho andado para falar neste tema e hoje é o dia. É um post um bocadinho longo, mas pronto.

Todos sabemos – é público – que a amamentação tem benefícios para o bebé e para a mãe. Não vou aqui falar sobre isso, vou antes falar do meu caso específico.

Como já disse várias vezes, sempre soube que queria ser mãe. E quando engravidei a primeira vez, falei várias vezes com o médico sobre a amamentação e conclui que sim, se tiver leite, amamentarei. Mas impus a mim mesma que, logo que nascessem os primeiros dentes à bebé, acabava-se, literalmente, a mama!

Nasceu a gaiata, de cesariana e, no hospital, perguntaram-me se eu ia amamentar ao que eu disse que sim. Ela mamou, foi para o berçário e eu fiquei na cama para passarmos aquela que seria a nossa primeira noite separadas em vez de juntas. Tudo tranquilo, até porque, se ela precisasse de mim durante a noite eu teria de pedir ajuda porque não me podia levantar. Pelo meio a enfermeira avisou-me que, de manhã, iriam trazer um spray para ajudar a subida do leite (frase bonita, não acham?).

Adormeci (efeito da anestesia) e sonhei. Que era Cleópatra e que estava a tomar um banho em leite de burra. De manhã, quando acordei, percebi que não era sonho… eu estava a tomar banho em leite – do meu – e “alguém”, durante a noite, tinha-me tirado as mamas e colocado duas rochas. A enfermeira, quando viu o que se passava, foi logo buscar a bebé (que tinha dormido a noite toda) e meteu-a a mamar. O alívio, o alívio. Ainda hoje me recordo dessa duplicidade de sensações maravilhosas. Tinha a minha filha, ao meu colo, eu estava a amamentar e estava aliviada. Era tanto o leite que a gaiata mamou dum lado e a seguir quase que não pegou do outro. Da segunda vez, troca de lado e pronto. Pensei eu que a produção de leite se iria regularizar.

Qual quê!

No segundo dia e ainda no hospital, a quantidade de leite era tal que já começava a fazer caroços. Quando a bebé demorava muito tempo entre cada mamada eu quase que não conseguia baixar os braços…

Veio então uma enfermeira mais experiente a quem falei nas dores e no peso. Bom, estava quase na hora da bebé mamar e ela resolveu explicar o que deveria fazer para ela beber o máximo possível. E então, enquanto a bebé mamava, ela apertou, esborrachou e voltou a apertar as minhas mamas. Foi como sentir dois balões a esvaziar.

Não me vou alongar em mais detalhes, excepto que me sentia uma autêntica vaca leiteira. Não precisei de nada para ajudar o leite a subir e, quando a minha filha fez um mês e pouco, comecei a ter de tirar leite para congelar porque ela não dava vazão à quantidade de leite que eu tinha e o peito doía-me imenso entre as mamadas porque havia leite a mais. Infelizmente na altura não havia bancos de leite materno senão eu teria doado vários litros. Por dia.!

Quando fui trabalhar, aos cinco meses da piolha, já ela comia sopa ao almoço e ao jantar. E eu continuava a dar de mamar de manhã, ao lanche, ao deitar e a tirar quase 2 litros de leite por dia. Já o disse, eu era uma autêntica vaca leiteira. Tivemos que comprar uma arca congeladora para guardar os saquinhos com o leite que depois aquecíamos quando eu não estava.

Tive, naturalmente, gretas e naturalmente que houve alturas que me doeu horrores. Mas doía-me mais se o leite não saísse e, confesso, entre as duas dores, preferia as das gretas. Por outro lado, havia a hipótese de tomar medicação para secar o leite mas havia contra indicações e não era imediato. Optei por continuar. Eram os nossos momentos – eu e a gaiata, as duas. Eu a conversar com ela e ela a alimentar-se e a crescer. Quase que uma continuação da gravidez.

Quando a piolha fez sete meses começou a vomitar quando lhe dava a mama. Se bebia o meu leite do biberão a coisa ia, se fosse a mama vomitava. E eu ainda tirava um litro e meio de leite por dia. Lá ia eu trabalhar com a bomba, os biberões para guardar o leite e uma geleira pequenina para o trazer para casa. Um filme!

E isto durou até aos 10 meses! Foram dez meses de amamentação e que, apesar das dores, de andar de bomba e afins, foram fantásticos.

Quando o meu filho nasceu achei que ia ser a mesma coisa. Não foi. O leite não tinha tanta qualidade e o piolho precisava de comer. Cedo começamos a dar leite de lata em alternância com o meu leite. Ainda durou uns quatro ou cinco meses mas nem de longe nem de perto o mesmo que durou com a gaiata.

E agora digam-me: fui melhor mãe para ela do que para ele? Ou serei tão boa mãe dum como de outro? Tenho para mim que fui exactamente a mesma mãe para os dois, apesar de ter tido litros de leite a mais para ela que para ele. Não me parece que se possa medir a minha qualidade como mãe por ter dado mais de mamar a um e menos ao outro. Mais, a minha mãe que só teve leite para mim por um mês (ou nem tanto) foi tão boa mãe para mim como eu sou para os meus filhos. Ela é o meu exemplo!

Então se assim é, alguém me explica de modo a que eu perceba, porque é que se enfia pelas cabeças das mães que são piores que as outras por não darem de mamar? Porque é que se leva as mães que não podem amamentar a sentirem-se menos mães que as outras?

Aceito que se fale imenso nos benefícios da amamentação, mas era boa ideia que não se fizesse isso à custa de culpabilizar as mães que, por impossibilidade ou decisão própria, não o fazem? Não caberá, como em todo o resto, às mães decidirem o que fazer?

Em suma, quando é que a sociedade vai perceber que cabe à mulher – e quando muito ao seu parceiro(a) – decidir o que fazer, como e em que condições?