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StoneArt Portugal

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Eu e os meus livros. Sejam bem vindos a esta minha casa.

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Há médicos e não-médicos

Tramitação-do-Mais-Médicos-está-dentro-do-prev

Já falei aqui sobre a minha Doença de Crohn mas creio que nunca contei como me foi diagnosticada. 

Sei que o texto vai ser longo mas peço que o leiam até ao fim. Em duas vezes se for preciso. É que é preciso, muito preciso mesmo, perceber que há médicos e há não-médicos.

Não sei dizer ao certo em que ano comecei a ter problemas mas recordo-me que fui parar algumas vezes ao hospital com imensas cólicas, gazes, diarreias que não passavam, dores abdominais de fugir.., Por norma, finais de Julho, princípios de Agosto era certinho que eu ia lá parar. Os médicos viam-me, faziam umas análises ao sangue, não detectavam nada e achavam que seria uma colite. Mandavam-me para casa, a coisa melhorava e, no ano seguinte, voltava a acontecer, mais ou menos na mesma altura.

E por uns cinco ou seis anos aconteceu assim.

Quando aconteceu a Expo'98, eu ia quase todos os dias para lá. E num dos dias - em finais de Junho - comecei com os sintomas. Tentei aguentar-me ao máximo, afinal queria mesmo ver tudo e mais alguma coisa da Expo, mas, por fim, desisti e fui mesmo ao Hospital. Estava de tal modo que a minha mãe, na véspera da ida ao hospital, ao ver-me ao longe, disse a uma amiga - a minha filha está grávida e não me quer dizer. Não estava, estava apenas inchada que nem um peru em véspera de Natal.

Na manhã seguinte, no hospital, contei à médica os sintomas que tinha e o facto da história ser recorrente, ela achou estranho e disse-me que, apesar das análises não mostrarem nada de especial, gostava que eu fosse vista por um médico de cirurgia para ter mais certezas. Mas que o médico que ela achava que me devia ver só estava no hospital por volta das 16h, hora a que ela já não estaria e que implicaria uma espera de umas seis horas. Certo, disse eu, vou almoçar com calma, levo o meu livro e estou aqui às 16h. E assim fiz.

Quando regressei ao hospital ia a pensar com os meus botões que, das duas uma - ou o médico não fazia ideia que eu lá ia, ou iria ter de repetir de novo a história. Enganei-me redondamente. Passados alguns minutos de me ter identificado fui chamada ao gabinete do médico. Ele tinha o meu processo à frente e disse-me que sabia o que tinha contado à primeira médica e que, por isso, não me ia demorar, queria apenas fazer-me algumas perguntas. Lá respondi e, no fim, ele disse-me que não, não era caso para ele, pelo menos para já, mas que deveria ir a um gastrenterologista. Mas olhe - disse ele - não é a um qualquer, é ao Dr. P. que é o maior especialista aqui do hospital. Certo, assim farei. Onde marco a consulta? Pois que não foi preciso, o médico disse-me apenas para aparecer, três dias depois, no dia da consulta do Dr. P e dizer que ia da parte dele para ser atendida. 

Bom... no dia (lembro-me perfeitamente que era uma quinta-feira) lá voltei ao hospital e ia com a mesma sensação - ou ninguém sabe o que se passa ou vou ter de explicar tudo. Voltei a enganar-me. Logo que disse à enfermeira que vinha da parte do médico (não me recordo o nome) ela disse-me logo que sim, que estavam mesmo à minha espera, que o Dr. P até tinha dito para eu ser logo atendida assim que chegasse. Pasmei!

Quando entrei no gabinete o Dr. P disse-me que sabia a minha história e que queria ainda esclarecer mais coisas. Esclareci, bastante agradada por tudo o que se tinha passado até ai. Marcamos os exames em falta - que ele quis fazer pessoalmente - e, passada uma semana, após os exames, lá tive o diagnóstico e o tratamento. Doença de Chron, fase embrionária. 

Não fosse esta sequência de médicos, daqueles a sério, e, provavelmente eu teria continuado a ser medicada para algo que não tinha, e a doença teria continuado o seu percurso sem tratamento. Entre os tratamentos e a gravidez, a doença regrediu de tal forma que, nos últimos exames, não é detectável.

Dado este exemplo do que é ser um bom médico, um médico a sério, um médico que honra a sua profissão, tenho de vos contar o que se passa com uma amiga.

Há dois anos atrás, naquelas consultas de rotina, fez alguns exames. Ecografia ginecológica, mamografia, papanicolau. Tudo exames que devem ser feitos de x em x tempo e que permitem diagnosticar, a tempo, algum problema mais sério que possa aparecer. Quando fez os exames foi-lhe dito, pela médica e por quem fez os exames, que esteja descansada que, caso haja algum problema nós contactamos. Se não dissermos nada é porque está tudo bem. 

Ninguém ligou e ela ficou descansada.

Entretanto esteve doente, teve gripe, teve renite, a filha e o filho adoeceram, o marido idem. E todos foram à mesma médica, normalmente até com ela que gosta de os acompanhar. E nada lhe disseram. 

Esta segunda-feira o marido foi ao médico e a minha amiga foi com ela. Pelo meio da consulta pergunta-lhe a "médica", então quem é que a está a acompanhar, no hospital, por causa do carcinoma? ou não tratou disso?

Como? Carcinoma? Quem?...

A moça, a minha amiga, claro que ficou em choque.  Afinal descobre assim, por acaso e acidente, que tem um carcinoma há dois anos e que não foi avisada.

Claro que a reacção da médica foi logo mandar tudo para o hospital... ou então não. Porque, quando, ontem, a minha amiga lhe perguntou se já tinha mandado as coisas para o hospital, a resposta foi, e passo a citar "não percebo a sua pressa. Quem esperou dois anos pode esperar mais uns dias". E ainda acrescentou "era grau um, não se preocupe"

Achará a senhora médica de profissão que um carcinoma é um dente que tem de ser arrancado? ou que não evolui?

Para onde caminhas, Serviço Nacional Saúde, quando, para além das filas de espera para operações ao coração, ainda tens médicos que têm atitudes destas?

 

(Nota - carcinoma é um tumor maligno desenvolvido a partir de células epiteliais)

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