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Stone Art

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Sejam bem vindos a esta minha casa.

No Blog Com... Gaffe

Hoje, no Blog com... temos a querida Gaffe que acedeu a deixar-nos um texto e a responder a meia dúzia de perguntas.

Vamos a isto:

Um dia, pedi ao meu maior amigo que me descrevesse.

Pedi-lhe uma só vez e ele fez com que todos os retratos que de mim fizessem no futuro fossem inúteis.

- Às vezes, sento-me nas margens do rio, no lugar onde ele estreita como um pesponto de prata numa túnica verde. Sirvo-te vinho doirado. Tu és o reflexo d’oiro que morde os meus dedos.

E no entanto, não passo de um reflexo. Breve e inconstante na túnica que se vai tecendo ao longo deste tempo que é meu e que não sei bordar, como bordam as mulheres do Douro que cravam nos linhos canteiros de flores. Os meus linhos rudes e ásperos, estendo-os eu em cada palavra que escrevo e sei que os abandono mal o oiro morde os meus dedos ou logo que o dia se começa a escoar pelo que faço. Não dou importância às palavras que escrevo. São voláteis. Não as cuido. Dou importância às flores que não bordo e aos amigos que me abordam, cravando palavras nas únicas paisagens que aprendi a amar. O Douro inteiro e Paris ruiva, recortada no que tenho dentro e faz de mim parte do que sou.

Às vezes sou feliz.

Às vezes choro.

Quando choro, chove em todo o lado. Uma chuva intensa atravessada pela faísca de ser feliz. Nunca se prende ao meu cabelo ruivo.

Há três claridades que respeito:

O arado do tempo do começo, aberto em núpcias o chão fecundo e o voo branco onde se esconde a Morte, mas ergo-me do chão, levanto voo e cresço, porque sei que a terra é apenas fértil.

Se pudesse ouvir o tempo a passar, como se fossem pardais, os minutos, sentava-me em cima da sombra da chuva, alastrava os dedos na terra e ficava parada a criar raízes.

  1. deixado pelo José da Xã: Achas que escrever é um acto de profunda solidão?

As palavras escritas, tais como as lidas, originam multidões. É apanágio da escrita – e da leitura – povoar os isolamentos.

Não saber ler nem escrever, isso sim, é uma das mais profundas solidões que existem.

Escrever nunca foi um acto de solidão. É antes um acto do silêncio.

  1. Como ocupas os teus tempos livres?

Não tenho tempos livres! A minha liberdade é exactamente essa. Todo o meu tempo é construído com pedaços do que gosto de fazer. Tenho todo o tempo do mundo para ocupar como sonhei. Alguns chamam-lhe sorte. Eu prefiro coragem.

  1. Porque escolheste o anonimato no blog?

Não sei se realmente se cumpre o anonimato. Espalho pedaços reconhecíveis de mim por todo o lado. A Gaffe, deixou de ser o heterónimo tímido e titubeante que foi planeado no início. É agora um pseudónimo exagerado e tonto, repleto de mim.

A minha ausência gráfica – chamemos-lhe assim para simplificar –, é apenas um pretexto patético para reler o meu querido Gonçalo M. Tavares em "Breves Notas Sobre o Medo":

Indecifrável é o homem que, além de permanecer em silêncio e imóvel, se esconde da luz, como o mais velho dos ratos.

Dele – por jamais ter sido visto, mas, acima de tudo, por jamais ter sido entendido – se construirá uma robusta e luminosa estátua no centro dessa cidade que nem sequer se recorda de alguém o ter visto nascer.

  1. Estamos em final de férias. Como foram as melhores férias que te lembras?

As minhas férias favoritas foram as deste Outono de que já falei:

Ficávamos sentadas nos fins das tardes dos meses antigos de Outono nas escadas da casa dos meus avós.

Havia um búzio nacarado que encostava ao ouvido. A minha irmã traduzia a voz do mar, o rugido do mar, o bramir do mar e eu acreditava, porque Outubro tinha aberto a cor aos olhos pardos da minha irmã e eu via, nítidas, as escamas verdes e cinzentas que mudavam de lugar todos os dias.

Acreditava nos peixes minúsculos que se moviam naquelas águas e sabia que uma criatura com escamas de brilho verde e cinzento nos olhos tinha misteriosas e inacessíveis intimidades com os oceanos.

Ouvia a voz do mar saída da boca do búzio. A minha irmã, depois de mo tirar devagarinho, encostava-o ao ouvido e traduzia o enigmático sopro daquelas cordas vocais. O que diziam variava de acordo com a disposição da minha cúmplice, mas eu acreditava nas tragédias e nas ondas de promessa de bonança de que dali vinham.

Sideravam-me.

Agora encosto a cara ao vidro duplo da janela. Não consigo ouvir a voz do mar, o rugido do mar, o bramir do mar. Ouço apenas o ruído do mar sem tradução.

  1. Sem saberes quem será o ou a próximo convidado, que pergunta lhe deixas?

Como se Vê com os meus olhos? – É uma pergunta muito telegénica que podia ser feita por um rapazinho com ar de totó, sentado num sítio qualquer que pudesse ser bem iluminado.

  1. O que gostarias de me perguntar

A mesma que fiz ao teu próximo convidado, porque nunca consegui jogar sem fazer batota.

Batoteira!

Tenho sempre medo, receio, de olhar para mim pelos olhos dos outros. Vejo-me com inúmeros defeitos que, não bastas vezes, me assustam a mim própria. Teimosa, refilona, torta.. são apenas alguns deles. Enfim, um ser humano normal, seja lá o que for a normalidade.

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