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Stone Art

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Para onde caminhas, Serviço Nacional Saúde?

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Vamos aqui fazer um exercício imaginário. Sentem-se calmamente, peçam um café e acompanhem este exercício que pode ser um bocadinho longo.

Imaginemos então que uma pessoa, em Agosto do ano passado, começava a sentir pontadas a mais no peito e um cansaço extremo quando fazia o mínimo exercício. Juntemos-lhe tensão alta e um irmão falecido por uma dissecção (será assim que se escreve?) da aorta e temos o primeiro quadro clínico da pessoa em causa.

Estão a visualizar?

Então continuemos. Imaginemos ainda que essa mesma pessoa, chamemos-lhe Joaquim (e daqui a pouco vão perceber porque escolhi o nome da personagem representada pelo Miguel Dias na fantástica série Bem Vindos a Beirais) tem a sorte de ter um subsistema de saúde que lhe permite o acesso a hospitais privados e que, por isso, teve, rapidamente, consulta de cardiologia com uma médica bastante acessível e que lhe mandou fazer vários exames, entre eles um TAC ao coração. Rapidamente e porque o subsistema continua a permitir, o exame é marcado num hospital de referência no combate à obesidade.

Confusos por esta referência à obesidade quando se fala em coração? Pois, é que os direitos dos mais altos e dos mais pesados são esquecidos em quase todos os hospitais. E como o nosso Joaquim tem 1m93cm e pesa 160 kg, não pode fazer o TAC e é recomendado que a médica mande fazer outro exame.

Continuamos, é claro, no mundo imaginário e já estamos em Novembro. Foram feitos vários exames, todos pelo subsistema de saúde – porque o nosso Joaquim tem essa sorte, a de ter um subsistema de saúde que lhe suporta estes custos – mas o exame que a médica manda fazer em substituição do TAC só pode ser feito num hospital público, chamemos-lhe hospital Um.

Um mês mais tarde, o Joaquim lá vai fazer uma coronariografia (é assim que se escreve?) e sai de lá com um verídico – precisa de fazer um bypass porque uma das coronárias está totalmente entupida.

Continuemos no reino do imaginário e imaginemos que o Joaquim contacta o seu subsistema para saber se esta operação é comparticipada se a fizer num hospital privado. Pois que não, pois que não se brinca aos corações nos privados, é operação a fazer num hospital público – seja no Hospital Um, Dois ou Três (é que, aparentemente, só há três hospitais, a sul do Mondego, capazes duma operação desta envergadura a um homem da envergadura do Joaquim). No privado aceitam operar, tem 1% ou 2% de risco mas o custo… o custo, no mínimo, será de € 25.000,00 para começar. Vão-se os anéis, ficam os dedos, dizem, mas para isso há que ter anéis…

Estamos em Junho e finalmente consegue-se uma consulta no Hospital Dois. Porque se esperou por uma consulta no Hospital Três que não veio e acabou por se mandar os exames e tudo por email para o Hospital Dois que, dois dias depois do envio do email, marcou a consulta de cirurgia para a semana seguinte. Foram rápidos.

E agora continuemos a imaginar.

Imaginemos agora que o Joaquim vai à consulta de cirurgia e que o cirurgião confirma todo o diagnóstico anterior e que sim senhor, precisa de ser operado. Assine aqui por favor e vá para casa esperar. Esperar dois ou três meses que a fila de espera tem cerca de 300 doentes à frente, alguns – mais do que desejávamos – em situação mais grave que a sua. Por isso espere, não desespere, e aguarde. Haveremos de o operar, só não lhe sei dizer é quando.

Conseguiram imaginar até aqui?

E se vos dizer que isto é a realidade? Que o que imaginaram é uma situação real? E que há doentes do coração à espera vários meses para fazerem operações que, se feitas de imediato, podem ser simples e que, quanto mais tempo esperam, mais complicadas se podem tornar? Que o sistema nacional de saúde – aquele para o qual descontamos – trata as operações ao coração (órgão vital) como se fosse uma operação ao menisco ou a uma hérnia? Que os cardiologistas, os cirurgiões, não sabem como explicar a doentes e familiares que podem morrer à espera de vez? E que muitos morrem mesmo porque não foram assistidos a tempo?

Para onde caminhamos, com este descuido, esta falta de consideração, pelos doentes – sejam eles do coração ou não?

Afinal e bem vistas as coisas, o maior doente é o SNS e precisa duma intervenção urgente!

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