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Stone Art

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Não gosto de casas frias

Vou ferir susceptibilidades...
Não gosto de casas assépticas. Casas que não parecem lares. Que parecem saídos do catálogo Moviflor. Sem cabelos no chão. Sem areias na tijoleira. Sem almofadas fora do sítio. Casas sem livros espalhados pela sala. Pela casa de banho. Pelos quartos. Casas que cheiram a lixívia. Sem nódoa. Sem chinelos perdidos nos tapetes.
Casas com os tupperwares por ordem e sem brinquedos perdidos pelo chão.
Com tudo lavado, arrumado, higienizado. As casas de método. Sem espaço para o desvio. Para o erro. Para a linha fora do sítio. Sem perdão a gavetas abertas.
Não gosto de casas frias. Sem vida. Cheias e sem vida.

(Rita Marrafa de Carvalho)

Filhos

Quando se quer fazer de um filho uma criança adoptada, ter um filho é uma obra de caridade. Quando se quer fazer duma criança adoptada um filho, reconhecemo-nos nele, e toleramos melhor a nossa condição humana. Sobretudo porque ele será tudo aquilo que não fomos e fará o que deixámos por fazer.

 

da Sinopse do livro "Abandono e Adopção" de Eduardo Sá e Maria Clara Pereira de Sousa Sottomayor

Os 15 excertos mais belos da história da literatura

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A revista Bula perguntou aos leitores, seguidores do Facebook e Twitter: qual o seu excerto de livro favorito. Não sendo um resultado ser abrangente ou definitivo e correspondendo apenas à opinião das duas mil e tal pessoas consultadas aqui fica a lista dos 15 excertos mais citados, classificados de acordo com o número de citações que obtiveram. Gabriel García Márquez foi o único autor que teve dois excertos entre os mais citados.

(infelizmente os excertos estão em brasileiro)

O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry

Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz.

Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, cons­truídas à margem de um rio de águas diá­fanas que se precipitavam por um lei­to de pedras polidas, brancas e enor­mes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo.

 

Choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias.

Orgulho e Preconceito, de Jane Austen

É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna deve estar necessitando de uma esposa.

Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos

Matar não quer dizer a gente pegar revolver de Buck Jones e fazer bum! Não é isso. A gente mata no coração. Vai deixando de querer bem. E um dia a pessoa morreu.

O Diário de Anne Frank, de Anne Frank

É difícil em tempos como estes: ideais, sonhos e esperanças permanecerem dentro de nós, sendo esmagados pela dura realidade. É um milagre eu não ter abandonado todos os meus ideais, eles parecem tão absurdos e impraticáveis. No entanto, eu me apego a eles, porque eu ainda acredito, apesar de tudo, que as pessoas são realmente boas de coração.

O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger

O cara da Marinha e eu dissemos que tinha sido um prazer conhecer um ao outro. Esse é um troço que me deixa maluco. Estou sempre dizendo: ‘Muito prazer em conhecê-lo’ para alguém que não tenho nenhum prazer em conhecer. Mas a gente tem que fazer essas coisas para seguir vivendo.

Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe

É uma coisa bastante uniforme a espécie humana. Boa parte dela passa seus dias trabalhando para viver, e o poucochinho de tempo livre que lhe resta pesa-lhe tanto que busca todos os meios possíveis para livrar-se dele. Oh, destino dos homens!

O Encontro Marcado, de Fernando Sabino

De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.

Demian, de Hermann Hesse

Não creio que se possam considerar homens todos esses bípedes que caminham pelas ruas, simplesmente porque andam eretos ou levem nove meses para vir à luz. Sabes muito bem que muitos deles não passam de peixes ou de ovelhas, vermes ou sanguessugas, formigas ou vespas.

Lolita, de Vladimir Nabokov

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.

A Revolução dos Bichos, de George Orwell

Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todos iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir, quem era homem, quem era porco.

On The Road, de Jack Kerouac

Assim, na América, quando o sol se põe, eu me sento no velho e arruinado cais do rio olhando os longos, longos céus acima de Nova Jersey, e consigo sentir toda aquela terra crua e rude se derramando numa única, inacreditável e elevada vastidão, até a costa oeste, e a estrada seguindo em frente, todas as pessoas sonhando naquela imensidão, e em Iowa eu sei que agora as crianças devem estar chorando na terra onde deixam as crianças chorar, e você não sabe que Deus é a Ursa Maior? A estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre a pradaria, reluzindo pela última vez antes da chegada da noite completa, que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia, e ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa, além dos desamparados andrajos da velhice.

Carta a D., de André Gorz

Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.

Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle

Eu sou um cérebro, Watson. O resto é mero apêndice.

O que os pais pensam mas não dizem

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Com a água do lago a lamber-lhe as têmporas, enxotou indolentemente um insecto que lhe tinha pousado no pulso. Cozinhar para uma clientela tão esquisita era realmente uma droga. Podia ser que, se ficasse ali fora o tempo suficiente, alguém ligasse para a segurança social e aparecesse uma megera da protecção de menores. Ruby e Nat seriam levados para uma casa de acolhimento para crianças, ao estilo de Dickens, obrigados a comer fígado com vasos no interior e sopa fria de nabo. E, após quinze dias disso, iriam finalmente entender a miserável tarefa ingrata que ela tinha, tendo de pensar continuamente no que dar a comer aos esquisitinhos dos filhos.

 

(in Acasos Felizes de Jill Mansell)

Viveu e...

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Acocorei-me para fazer o gesto de beijar a terra e ainda ajoelhado disse:

- Mestre Glutão de Sangue, sabe que a minha vista é má. (...) se estas marcas fossem feridas reais, há muito que estaria morto.

- E então? - disse ele friamente. (...) - Perdido no Nevoeiro vou falar-te de um homem que uma vez conheci em Quautemálan. (...) Esse homem fugia ao menor sinal de perigo; evitava os riscos mais naturais da existência. Refugiava-se como um pequeno animal na sua toca, abrigado e protegido. Rodeava-se de sacerdotes, médicos e bruxos. Comia apenas os alimentos mais nutritivos e todas as poções mais nutritivas de que tivesse ouvido falar. Nunca antes homem algum tinha tido tanto cuidado com a sua vida. Vivia, unicamente, para continuar a viver.

Esperei que ele continuasse a falar, mas não disse mais nada, pelo que lhe perguntei:

- O que lhe aconteceu, Mestre Cuachic?

- Morreu.

- E isso é tudo?

- Que mais se pode passar com um homem? Nem sequer me lembro do nome dele. Ninguém sabe nada sobre ele, excepto que viveu e que, por fim, morreu.

In Orgulho Asteca de Gary Jennings

Era isto.

Um bom livro

 

 

É o bom leitor que faz o bom livro; em cada livro, ele encontra trechos que parecem confidências ou apartes ocultos para qualquer outro e evidentemente destinados ao seu ouvido; o proveito dos livros depende da sensibilidade do leitor; a ideia ou paixão mais profunda dorme como numa mina enquanto não é descoberta por uma mente e um coração afins.

Ralph Waldo Emerson, in 'Sociedade e Solidão'

e é isto

 

 

 

As conversas entre amigos são contínuas. Ainda que fiquem anos apartados retomam-nas sempre no ponto em que ficaram, empenhando a experiência adquirida no entretanto. As grandes amizades não carecem de comunicação constante e ininterrupta, podem mesmo não dizer nada um ao outro entre encontros que quando se tornam a ver a sensação é a de que se tinham visto no dia anterior. O dia anterior em certas amizades podia ter sido há três anos e meio.

 

Retirado do livro “A Mentira Sagrada” de Luís Miguel Rocha