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StoneArt Portugal

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Eu e os meus livros. Sejam bem vindos a esta minha casa.

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Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Eu e os meus livros. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Pais maus

Ser pai ou mãe não é ensinado nos livros. As crianças não trazem manual de instruções e não há uma fórmula de sucesso. Poderia haver se as crianças fossem todas iguais, sem diferenças de personalidade. Sendo que é o oposto que se verifica, que cada criança é única, na sua forma de ser e estar, então também ser mãe ou pai é também uma experiência única, que depende, em grande parte, da forma como a criança reage às atitudes dos seus progenitores. Se isto é verdade, e eu acredito que sim, também é verdade que há formas de agir mais ou menos correctas para se educar um filho.

Regras e disciplina. Duas palavras que assustam muitos pais e que poucos, hoje em dia, impõem aos seus filhos. Esquecem-se, provavelmente, que foi pela obrigação do cumprimento de regras e disciplina pelos seus próprios pais que hoje são adultos responsáveis. As crianças não gostam, é óbvio. Mas precisam que alguém as imponha para que se tornem adultos. Também não é preciso exagerar. E claro que, de vez em quando, se podem quebrar as regras. Bom senso é preciso.
Regra e disciplina fazem parte da boa educação que se pode dar a um filho. E não podemos, como muitos pais fazem, delegar a educação dum filho na escola. As escolas devem funcionar como complemento à educação dos pais e não como substituto. A escola deve servir para ensinar, os pais para educar. Tenho visto, porque faço questão de ser uma mãe presente na escola dos meus filhos, verdadeiras barbaridades ditas por pais que não mereciam esse nome. Desde uma mãe que se manifestou contra o seu filho ajudar na arrumação da sala de aula porque “o meu filho é um rapaz e os rapazes não têm de arrumar a casa”; a outra que acha despropositado o uso das palavras “obrigado” e “se faz favor” em crianças pequenas; um pai que, quando informado que o filho tinha batido num colega que respondeu “vocês sabem que ele é assim, tenham mais mão nele que eu não tenho”; e tantos outros casos que poderia aqui contar.
Sinceramente, e por amor aos meus filhos, prefiro ser uma mãe má a ser uma boa amiga. Amigos vão eles ter ao longo da vida e não vão ser os amigos que os vão educar. E também não será a escola que os vai educar. Contribuir para que os nossos filhos sejam adultos responsáveis, competentes, honestos e educados é a função principal dos pais. Que está esquecida por uma geração de pais, o que coloca em risco a sociedade como a conhecemos.
 
Crónica escrita em 2009 a propósito do texto abaixo, da autoria de Dr. Carlos Hecktheuer, Médico Psiquiatra

Um dia quando os meus filhos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e mães, eu hei-de dizer-lhes:
Eu amei-vos o suficiente para ter perguntado aonde vão, com quem vão e a que horas regressarão.
Eu amei-vos o suficiente para não ter ficado em silêncio e fazer com que vocês soubessem que aquele novo amigo não era boa companhia.
Eu amei-vos o suficiente para vos fazer pagar os rebuçados que tiraram do supermercado ou revistas do jornaleiro, e vos fazer dizer ao dono: “Nós tiramos isto ontem e queríamos pagar”.
Eu amei-vos o suficiente para ter ficado em pé, junto de vocês, duas horas, enquanto limpavam o vosso quarto, tarefa que eu teria feito em 15 minutos.
Eu amei-vos o suficiente para vos deixar ver além do amor que eu sentia por vocês, o desapontamento e também as lágrimas nos meus olhos.
Eu amei-vos o suficiente para vos deixar assumir a responsabilidade das vossas acções, mesmo quando as penalidades eram tão duras que me partiam o coração.
Mais do que tudo, eu amei-vos o suficiente para vos dizer NÃO, quando eu sabia que vocês poderiam me odiar por isso (e em alguns momentos até odiaram).
Estas eram as mais difíceis batalhas de todas. Estou contente, venci... Porque, no final, vocês venceram também! E, qualquer dia, quando os meus netos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e mães; quando eles lhes perguntarem se os seus pais eram maus, os meus filhos vão lhes dizer:
“Sim, os nossos pais eram maus. Eram os piores do mundo...As outras crianças comiam doces no café e nós só tínhamos que comer cereais, ovos, torradas. As outras crianças bebiam refrigerante e comiam batatas fritas e sorvetes ao almoço e nós tínhamos que comer arroz, feijão, carne, legumes e frutas. Nossos pais tinham que saber quem eram os nossos amigos e o que nós fazíamos com eles. Insistiam que lhes disséssemos com quem íamos sair, mesmo que demorássemos apenas uma hora ou menos. Nossos pais insistiam sempre connosco para que lhes disséssemos sempre a verdade e apenas a verdade. E quando éramos adolescentes, eles conseguiam até ler os nossos pensamentos. A nossa vida era mesmo chata! Nossos pais não deixavam os nossos amigos tocarem a buzina para que saíssemos; tinham que subir, bater à porta, para que os nossos pais os conhecessem. Enquanto todos podiam voltar tarde da noite com 12 anos, tivemos que esperar pelo menos 16 para chegar um pouco mais tarde, e aqueles chatos levantavam para saber se a festa foi boa (só para verem como estávamos ao voltar). Por causa dos nossos pais, nós perdemos imensas experiências na adolescência.
Nenhum de nós esteve envolvido com drogas, em roubo, em actos de vandalismo, em violação de propriedade, nem fomos presos por nenhum crime. Foi tudo por causa dos nossos pais! Agora que já somos adultos, honestos e educados, estamos a fazer o melhor para sermos “pais maus”, como eles foram”
Eu acho que este é um dos males do mundo de hoje: não há pais maus suficientes!

Violência escolar

De vez em quando lá acordo virada para o lado contrário da cama, e dá-me para ir buscar temas estranhos.

(Ou pelo menos estranhos para mim… se bem que, pensando bem, até isto de escrever ainda é estranho para mim, pelo que posso pensar que qualquer tema sobre o qual eu escreva é estranho… mas adiante, que não é disto que trata a crónica de hoje)
Com a aproximação, a passos largos, do início de mais um ano escolar, adivinho que se estejam a aproximar também os temas de reportagem habituais a esse propósito. O custo do material escolar,
(Educação gratuita? Onde? Cada vez que o ano lectivo começa, os encarregados de educação começam a deitar contas à vida, ou à bolsa, para perceberem quanto vão gastar, assim duma assentada),
a qualidade do ensino, a ansiedade das crianças (e dos pais), o melhor sítio para as crianças se sentarem na sala, os colegas, os exames que hão-de realizar, o regulamento escolar, atrasos no inicio das aulas, o estatuto do aluno, etc.
Claro que também se vai falar de violência escolar. Normalmente associada à violência entre alunos, ou de professores contra os alunos (muitas vezes associado, infelizmente a casos de pedofilia). Mas, e eu pergunto, e a violência contra os professores e auxiliares de educação, perpetrada pelos pais e/ou pelos alunos? Fala-se, à boca pequena, de que existem casos. Sabe-se que ali aconteceu um pai dar um par de estalos ao professor à frente dos alunos. Que aqui um aluno deu pontapés à professora porque não queria ir para a sala de estudo. Na outra escola um professor suicidou-se por não conseguir manter a ordem na sala. Aquela professora foi ameaçada por ter tirado o telemóvel à aluna. O outro professor levou com um cinzeiro na cabeça. A professora daquela turma teve uma navalha espetada em cima da mesa. Precisam de mais casos?
Muitos destes casos não chegam a passar para fora dos portões da escola, porque a vítima, o(a) professor(a), sabe que a nossa justiça é lenta, que muitos pais se desligaram da educação dos filhos
(ao ponto de eu ter ouvido, da boca dum pai duma criança de 8 anos, dirigido a um professor que tinha levado dois pontapés da referida criança, que “eu não faço nada dele, que quer você que eu lhe diga. Veja você se me pode ajudar”)
e que, se avançam com as queixas, ainda podem vir a sofrer represálias (do aluno, dos pais, da sociedade onde estão inseridos). Algumas vezes, esses professores os que são violentados, se forem pessoas mais fracas, acabam por se suicidar.
Meus caros, estamos a falar dum dos pilares de qualquer sociedade – os professores. São eles que ensinam, aos nossos filhos, uma boa parte dos conhecimentos que eles vão precisar para se tornarem adultos decentes, amados e respeitados pela sociedade. Mas não o fazem sozinhos. Nós, os pais, temos responsabilidades acrescidas. É a nós que cabe ensinar o fundamental – o respeito pelo próximo, pelos adultos, pelos mais velhos, por toda a gente. Enquanto não o conseguirmos fazer, com certeza que os professores também não o vão fazer.
Lembro-me, assim em jeito de fim de crónica, duma frase que li à uns tempos atrás e com a qual não podia concordar mais, por reflectir exactamente o que acabei de expor: “Fala-se tanto da necessidade de deixar um planeta melhor para os nossos filhos que se esquece da urgência de deixarmos filhos melhores para o nosso planeta."
E já agora, porque recordar é viver, diziam antigamente que os professores quando tinham que dar umas reguadas não se inibiam… alguns criticavam, outros apoiavam e ainda havia os que toleravam, mas certo era que o nosso Mundo era melhor, mais educado e com um melhor nível de conhecimento. Comparem, se quiserem ou se tiverem discernimento, bagagem e coragem para o fazerem de forma isenta.

 

(texto escrito por mim em Agosto de 2010 mas que, infelizmente, se mantêm muito actual)

Pais vs Filhos

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É inevitável. A partir de determinado momento as nossas crianças deixam de ser tão crianças assim e começam a querer tomar decisões. Pode ser o sítio onde se vão sentar para comer, a roupa que vão vestir ou se pegam numa faca para cortar a comida. Tudo serve para contrariarem os pais e tentarem levar a deles avante.

E isto é positivo, apesar de nem sempre os pais o perceberem. É sinal que estão a crescer e a ganhar autonomia. E por isso batalham ao máximo para que os pais cedam e os deixem fazer as coisas como eles querem. Levando a coisa ao extremo, quase que nos sentimos num verdadeiro cenário de guerra, com os pais a dizer alhos e os filhos a dizerem bugalhos, acabando por se envolverem em conflitos constantes, em que pais e filhos se esgotam – em argumentos e em paciência.

Ninguém quer viver em conflito. Qual é o pai/mãe que gosta de acordar a discutir com os filhos e passar assim o dia todo, até se ir deitar? Nenhum, obviamente.

Mas, por outro lado, quem é que gosta de ser constantemente contrariado, de que não lhe permitam ter ideias, decidir ou escolher? E é isto que os filhos sentem quando os pais fazem valer, a todo o custo, as suas decisões.

Há que encontrar um meio-termo, uma solução que permita que os pais não passem o dia a discutir e a impor-se aos filhos e, ao mesmo tempo, permita que os filhos tomem decisões.

A solução? Escolher as batalhas, as situações em que realmente é importante que os pais imponham a sua posição. Qual é a diferença entre a blusa azul ou a amarela? Entre a cadeira do lado direito e a do lado esquerdo? Se a vida da criança não está em risco, se a sua integridade física está garantida e se não vai ser mal-educada com alguém, porque é que tem de fazer daquela maneira e não doutra?

Ao escolhermos quais as situações em que é fundamental que a criança obedeça e ao deixarmos que, noutros casos, seja ela a escolher, estamos a respeitar a criança, a deixa-la crescer e a mostrar-lhe que confiamos nela. Ao mesmo tempo estamos a passar-lhe a mensagem de que, quando exigimos alguma coisa, é porque é mesmo importante e não um simples capricho da nossa parte.

Haja coerência

que o resto logo se vê...

 

Agora, no café, uma mãe com o seu gaiato que não teria mais de quatro anos.

 

- quero um bolo!

- não comes um bolo porque não comeste a massa.

- então quero um kinder.

- e qual deles queres?

- não há o que quero, quero isto.

- um queque? Não preferes outro bolo?

Saudação

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Dizia o meu bisavô – que eu tive o grato prazer de conhecer e que morreu quando eu tinha seis ou sete anos – que a saudação não se nega a ninguém.

Entenda-se, por saudação, o cumprimento. Um bom dia, boa tarde ou boa noite conforme a hora a que nos estejam a ouvir (e é irrelevante, aqui para este texto o facto de que se pode dizer bom dia todo o dia que continua válido).

E este cumprimento, esta saudação, seja da forma que for, não se nega. E é prova de educação, de civismo e, acima de tudo, de que estamos a dar atenção a quem está à nossa frente. É por isso que, sempre que chego ao trabalho digo “bom dia!” a quem está e espero por resposta. E é também por isso que, quando chego a qualquer serviço para ser atendida digo, a quem me vai atender “bom dia!” antes de pedir seja o que for.

Irrita-me, por isso, solenemente, que a pessoa, do lado de lá, atenda o meu pedido sem que me diga o mesmo. Pior ainda quando preparam tudo, dão-me as coisas e nem sequer quando peço a conta são capazes de falar.

E o mesmo se passa com o Se faz favor! e o Obrigado!

Será que queima a garganta dizer estas palavras? Será que acham que são superiores aos outros e que os outros não merecem ouvir?

Bom dia! Boa tarde! Boa noite! Se faz favor! Obrigado!

Quatro, são quatro expressões simples que podem fazer toda a diferença num atendimento ou numa conversa. Quatro expressões inconsequentes, que não vos queima a garganta ou a boca, que não causam engulhos ou mal entendidos mas que devem ser ditas.

E devem ser ditas porque são uma forma de saudação. E essa, não se nega.

Estou farta de ti!

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 … dizia uma ilustre mãe à sua filha de 2 ou 3 anos no outro dia na esplanada do café, enquanto a miúda, sem mais que fazer, subia e descia da cadeira, empurrando-a para frente e para trás.

Gostei de ouvir… sim, claro que sim. E esta criança, a filha, claro que também. Obviamente que ouvir a nossa mãe dizer que está farta de nós é muito bom e faz maravilhas à nossa personalidade.

Fui irónica! (ou será que alguém acreditou?)

Estou farta de ti!, não gosto de ti!, que peste! , és mesmo estúpido(a)!  Ou outras variantes destas frases são coisas que não se deve, em momento algum, dizer aos filhos – e que, infelizmente, muita gente diz. Será preciso explicar que, para os filhos, os pais tem sempre razão, são os heróis, os modelos a seguir – pelo menos quando são mais novos – e, se são esses mesmos modelos que dizem que a criança é estúpida, peste ou que não merece que gostem dela, a criança vai acreditar e aceitar como sendo realidade?

Uma criança que cresce a ouvir – sobre ela – este tipo de comentários, vai-se tornar um adolescente inseguro e problemático e um adulto com maiores problemas ainda. Vai-se tornar um adolescente que não gosta dele próprio (e porque iria gostar se os seus próprios pais não gostam?) com todos os problemas inerentes a essa falta de amor-próprio. E vai tratar-vos exactamente da mesma maneira que foram tratados por vocês.

Corrijam as crianças, ensinem-nas a comportar mas nunca, nunca mesmo, digam que estão fartas delas, que não gostam delas ou que são estúpidos e burros. Façam-no com respeito e acreditem que vão ser respeitados no futuro. Fazendo-o, as probabilidades de criarem adultos seguros e com amor-próprio, são bastante superiores!

Sair de casa dos pais

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Estamos naquela época do ano em que a procura de casa ou quarto para arrendar está nos picos, uma vez que são muitos os estudantes que acabaram o 12º ano e que vão para o ensino superior com a escolha de um (per)curso de vida que os leva para fora da sua zona de conforto.

Sem dúvida que é um momento alto. Para eles, os estudantes, porque é o início duma nova fase de estudos e porque ganham mais independência. E para os pais porque vêem os seus passarinhos sair de casa e ganhar asas. Nuns casos. Noutros as asas apenas crescem mais um pouco.

De facto muitos são os estudantes que chegam a esta fase da vida, de maior independência, sem terem tido, ao longo da sua vida, qualquer cheirinho do que é ter responsabilidades. Foram super protegidos, nunca lhes foi pedido que fizessem coisa alguma ou que ajudassem nas tarefas domésticas, não podiam sair com os amigos nas férias e foram quase que coagidos a estar sempre em casa.

E o resultado não podia ser pior.

Muitos deles são crianças em corpo de adolescente. Que não têm desenvoltura para tratar das coisas mais básicas como manter um quarto limpo, fazer compras ou estrelar um ovo. Que se apanham sem controlo e por isso não sabem quando é que devem sair e quando devem estudar. Que não sabem por um micro-ondas a trabalhar nem abrir uma máquina da roupa. Que pedem ajuda aos senhorios para irem com eles à Junta de Freguesia tratar do cartão de residente ou para ligar o gás. Que não sabem apanhar um autocarro ou o metro e por isso, se calham a ficar mais longe da escola, se perdem. Que passam a semana em festas daqui e dali porque nunca tinham ido a nenhuma.

Enfim, podia dar milhares de exemplos do que se passa com muitos dos jovens que se encontram, pela primeira vez, fora da alçada dos pais sem que estejam preparados para isso. E a culpa, meus caros, mais uma vez, é dos pais.

E é culpa dos pais porque essa preparação começa muito cedo e começa em casa. Atribuindo‑lhes tarefas adequadas à idade, permitindo que eles saiam com os amigos, levando-os connosco quando vamos às compras ou tratar de qualquer coisa. Claro que não vamos pedir a uma criança de 6 anos que vá ao Continente fazer as compras do mês ou da semana. Mas se calhar pode ir à padaria ao pão. Ou pode ir connosco fazer compras e ajudar a por as compras na caixa ou no saco. Claro que aos 8 anos a saída com os amigos é até ao parque ao pé de casa, mas aos 14 anos já podem ir ao cinema. Obvio que aos 2 anos não arrumam a cozinha, mas aos 10 já o podem fazer. Aos 2 anos pode levantar o seu prato da mesa e arrumar os brinquedos.

Estas são algumas pequeninas coisas que podem ajudar a fazer das nossas crianças, adultos de sucesso.
E não é isso que todos os pais querem?

O que as mães não devem dizer #1

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Às vezes, contado ninguém acredita, mas a verdade é que há situações de bradar aos céus com crianças em restaurantes e esplanadas.

E a pior coisa que uma mãe pode dizer nestas situações é (e sim, eu já ouvi isto):

Não sei que raio de educação lhe dão na escola...

Querida mãezinha que disseste este disparate - a escola ensina, tu educas!

Um dia isto tinha que acontecer

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Já o disse aqui, hoje em dia não há Pais maus o suficiente. Pais que cumpram o seu papel de educadores, pais que ensinem os seus filhos que nem tudo nasce no chão e que é preciso lutar para ter o que se deseja, pais que exigem respeito (e que se dão ao respeito). Hoje a educação é feita de facilitismos, é feita de exigências erradas. Muitos, mas mesmo muitos pais, pensam que a educação é dada nas escolas e é aos professores que a exigem. E quando os seus rebentos não são educados, ouve-se à boca cheia – não sei que raio de educação lhes dão na escola?

Errado caros pais, errado. A educação dá-se em casa. E não é com facilitismos, é com exigências. É ensinando as crianças que o mundo pode ser delas se elas o respeitarem, se elas o souberem conquistar. É sabendo dizer-lhes que não, que não podem fazer isto, ou que não podem responder aquilo, ou que não podem ter todos os bonecos ou jogos que querem. É ensinar que há conquistas que sabem melhor porque temos de lutar por elas e que, quando uma porta se fecha, temos de procurar a janela. É dar-lhes asas, ensiná-los a voar, mas não o fazer por eles. É deixa-los cometer os seus próprios erros para que aprendam com eles e não querer que aprendam com os que nós cometemos.

Enquanto os pais desta geração não perceberem que a culpa dos filhos estarem à rasca é deles – dos pais – e enquanto se demitirem dessa função inerente a ser pai – a de educadores, vamos continuar a ter jovens mal educados, mimados e sem nenhum sentido na vida. Que futuro terão eles – os jovens – habituados a ter tudo e não ter de lutar por nada, quando chegarem à idade adulta e ao mercado de trabalho e tiverem de lidar com frustrações e com revezes na sua vida?

Mais uma vez, valia a pena pensar nisso.

Mas antes leiam, por favor, a crónica abaixo de Mia Couto sobre este mesmo tema, ele explica, magistralmente, este tema.

Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.

Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.

A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.

Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.

Foi então que os pais ficaram à rasca.

Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.

Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.

São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.

Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.

Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.

Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.

Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?

Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!

Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.

Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.

A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.

Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

 

Nota às 10h55

Parece que este texto entre aspas não é de Mia Couto. Obrigado a quem me alertou. De qualquer forma, o texto é excelente, também não é meu, e fica aqui.

Mais uma nota, agora às 12h37

O seu a seu dono. Já me ajudaram e identificaram a autora - Maria dos Anjos Polícia do blog Assobio Rebelde. Obrigado a quem identificou.

Mais facilitismo na educação?

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Depois de ler que Conselho Nacional de Educação defende fim dos chumbos por considerar que a “retenção dos alunos” sai demasiado cara ao Estado, pode provocar "problemas emocionais" nos alunos e não é eficaz, belisquei-me porque não estava a acreditar. Mas afinal parece que é mesmo verdade.

Pobres de nós, que fomos crianças numa altura em que a escola nos ensinava a sério e que, quem não aprendia, chumbava e tinha de voltar a repetir tudo de novo até aprender o suficiente para passar para a fase seguinte da aprendizagem.

Pobres de nós, que fomos crianças, numa altura em que as preocupações não eram financeiras mas sim de educação, de aprendizagem.

Pobres de nós, que fomos crianças numa altura em que um bom puxão de orelhas – no sentido figurativo – nos tirava as frescuras dos problemas emocionais por teremos chumbado.

Pobres de nós, que fomos crianças numa altura em que os erros de português eram corrigidos e que tínhamos trabalhos de casa para fazer todos os dias da semana, ao fim de semana e nas férias, porque a aprendizagem era continua.

E, acima de tudo, pobres de nós, que fomos crianças numa altura em que nos ensinavam que tínhamos de nos esforçar pelos objectivos que queríamos atingir – passar de ano, ter boas notas, por exemplo – e que nada nos era dado de mão beijada.

Teremos sido nós que fomos pobres ou serão estas crianças agora, as que vão ter ainda mais facilitismos nas escolas, que serão as pobres? As que vão achar que não vale a pena esforçarem-se porque lhes é dado tudo, as que vão achar que os objectivos vêm ter com elas e não são elas que vão ter de lá chegar, as que não sabem ouvir não porque essa palavra lhes pode provocar problemas emocionais?

Que futuro terão as crianças de hoje se os pais não os educam porque tem medo que elas, as crianças, fiquem melindradas?

E que futuro terá um país em que os adultos de amanhã, crianças de hoje, não tiveram uma aprendizagem correcta e que tudo lhes foi dado sem pedir nada em troca? Não ficará, num futuro próximo, mais caro ao estado ter adultos quase analfabetos, ignorantes, prepotentes e pouco educados, do que hoje dar um ensino como deve ser às crianças?

Já agora e com tanto facilitismo, não seria de se entregar o diploma da faculdade aos pais dos bebés quando vão pedir o cartão de cidadão? Assim escusa de haver escolas e professores – o resultado é quase o mesmo. Poupava-se nos custos e não havia, de certeza, problemas emocionais nas crianças, coitadinhas delas…

 

(e antes que me atirem farpas e tijolos, afirmo já que sou mãe de duas crianças a quem digo que sim e que não e a quem ensino a lutar pelos objectivos que querem atingir, com respeito e educação pelos outros)

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