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Stone Art

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Do emprego e da falta de vontade

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Este vai ser um texto provavelmente polémico e por isso vai começar pelo fim.

Apesar de tudo o que será dito, percebam que eu sou contra este tipo de emprego, que eu acho que todos – mas mesmo todos – devem ter estabilidade profissional, seja em que área for e que sou absolutamente contra os ordenados mixurucas que se pagam em determinados sítios. Direi ainda que compreendo perfeitamente quem não aceita determinados empregos porque teriam de pagar para trabalhar (ou seja, quando o ordenado que vão receber é inferior às despesas que vão ter para ir trabalhar, sejam elas do passe, da comida, de alguém que fique com os filhos, etc). Saibam ainda que sei que há desemprego real e que nem todos se enquadram no que vou dizer.

Dito isto…

Não consigo compreender o que leva algumas pessoas a desistir dos empregos que aceitam logo no primeiro ou segundo dia, quando ainda estão em formação, sem que tenham outro emprego em vista. Certo, o ordenado não é grande coisa, mas sempre ganham alguma coisa. Ganham um ordenado, ganham experiência e não ficam em casa a olhar para as plantas a crescer.

Queixam-se que não conseguem empregos, mas depois, quando os arranjam, aparecem um ou dois dias e desaparecem. Uns desaparecem sem dizer água vai, outros desaparecem porque não sabiam que ia ser tão difícil (e como é que sabem que é difícil se nem sequer tentaram?). Todos porque não se querem esforçar e esperam chegar ao novo emprego – muitas vezes é o primeiro emprego – e saber de tudo, sobre tudo.

Meus caros, não é assim que funciona. Quando se começa a trabalhar há um período de aprendizagem, em que temos, efectivamente, de absorver muita coisa. Há um período em que nos sentimos perdidos, em que nada do que aprendemos na escola faz sentido e que estamos assustados. É normal, normalíssimo. Foi assim comigo há 25 anos e é assim com toda a gente. Mas temos de respirar fundo e pensar que, se os outros conseguem, porque é que nós não vamos conseguir?

Também é verdade que nem todos estão talhados para a mesma coisa. Por exemplo, se têm pavor de falar com pessoas, não se candidatem a empregos onde vão ter de lidar – ao vivo ou ao telefone – com muita gente. Ou, pelo menos, não os aceitem para depois desistir. É que acabam por tirar lugar a outros, entendem?

Mas há mais coisas que não entendo neste quadro. Por exemplo, aqueles jovens que esperam encontrar o emprego de sonho na rua onde moram. Ou vá, na mesma localidade (se não tiverem de apanhar transportes). Só por milagre é que o conseguem, sabiam? Andar de transportes não é, necessariamente mau – expecto em dias de greve. Antes pelo contrário, permite-nos abrir horizontes, ver sítios e pessoas novas e permite ter mais um bocadinho para ler um bom livro.

E vendo estas atitudes em várias pessoas, confesso que me irrita quando as vejo – as mesmas – a queixarem-se que não conseguem arranjar trabalho.

Mais facilitismo na educação?

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Depois de ler que Conselho Nacional de Educação defende fim dos chumbos por considerar que a “retenção dos alunos” sai demasiado cara ao Estado, pode provocar "problemas emocionais" nos alunos e não é eficaz, belisquei-me porque não estava a acreditar. Mas afinal parece que é mesmo verdade.

Pobres de nós, que fomos crianças numa altura em que a escola nos ensinava a sério e que, quem não aprendia, chumbava e tinha de voltar a repetir tudo de novo até aprender o suficiente para passar para a fase seguinte da aprendizagem.

Pobres de nós, que fomos crianças, numa altura em que as preocupações não eram financeiras mas sim de educação, de aprendizagem.

Pobres de nós, que fomos crianças numa altura em que um bom puxão de orelhas – no sentido figurativo – nos tirava as frescuras dos problemas emocionais por teremos chumbado.

Pobres de nós, que fomos crianças numa altura em que os erros de português eram corrigidos e que tínhamos trabalhos de casa para fazer todos os dias da semana, ao fim de semana e nas férias, porque a aprendizagem era continua.

E, acima de tudo, pobres de nós, que fomos crianças numa altura em que nos ensinavam que tínhamos de nos esforçar pelos objectivos que queríamos atingir – passar de ano, ter boas notas, por exemplo – e que nada nos era dado de mão beijada.

Teremos sido nós que fomos pobres ou serão estas crianças agora, as que vão ter ainda mais facilitismos nas escolas, que serão as pobres? As que vão achar que não vale a pena esforçarem-se porque lhes é dado tudo, as que vão achar que os objectivos vêm ter com elas e não são elas que vão ter de lá chegar, as que não sabem ouvir não porque essa palavra lhes pode provocar problemas emocionais?

Que futuro terão as crianças de hoje se os pais não os educam porque tem medo que elas, as crianças, fiquem melindradas?

E que futuro terá um país em que os adultos de amanhã, crianças de hoje, não tiveram uma aprendizagem correcta e que tudo lhes foi dado sem pedir nada em troca? Não ficará, num futuro próximo, mais caro ao estado ter adultos quase analfabetos, ignorantes, prepotentes e pouco educados, do que hoje dar um ensino como deve ser às crianças?

Já agora e com tanto facilitismo, não seria de se entregar o diploma da faculdade aos pais dos bebés quando vão pedir o cartão de cidadão? Assim escusa de haver escolas e professores – o resultado é quase o mesmo. Poupava-se nos custos e não havia, de certeza, problemas emocionais nas crianças, coitadinhas delas…

 

(e antes que me atirem farpas e tijolos, afirmo já que sou mãe de duas crianças a quem digo que sim e que não e a quem ensino a lutar pelos objectivos que querem atingir, com respeito e educação pelos outros)