Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Stone Art

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Os jovens e os empregos

ng1367408_435x200.jpg

São muitos os jovens, hoje em dia, que, mesmo tendo emprego, também tem falta de vontade para o manter. Conheço vários casos desses, em que, à mínima contrariedade se vão embora, desaparecem sem dizer coisa alguma e que continuam a viver à conta dos pais. Falta-lhes maturidade para perceberem que a vida também é feita de sacrifícios e que é importante não esperar que as coisas caiam no céu.

No outro dia fomos almoçar a Elvas, a casa da minha sogra

(lá ganhei mais uns quilos, quem me manda ter uma sogra que cozinha maravilhosamente? E que, ainda por cima, gosta de nos mandar comida – da boa, da muito boa – para casa? E o bolo de mel e noz que ela faz? Senhores, de comer e chorar por mais)

Mas continuemos.

Dizia eu que fomos almoçar a Elvas e, como é nosso hábito, paramos na área de serviço de Montemor.

Fomos, nesse dia, atendidos pelo Pedro, um rapaz que deveria ter uns 25/30 anos. Conversa puxa conversa e o rapaz lá me contou que é formado em Economia e que começou a trabalhar aos 16 anos. Enquanto tirava o curso fez part-times, full-times, trabalhou numa gasolineira e numa papelaria. Nunca esteve desempregado porque nunca se achou superior. E tem planos para o futuro. Quer arranjar um emprego melhor – cá ou no estrangeiro – mas não se preocupa se não for na área que estudou. O que lhe interessa é continuar a pagar a casita que comprou e o carro que adquiriu em segunda mão.

Contou-me ainda que os amigos e colegas de curso achavam muito estranho ele aceitar trabalhar em qualquer lado. Mas hoje todos os invejam porque tirou o curso, vive sozinho e tem carro para se movimentar dum lado para o outro – tudo fruto do trabalho e sem depender dos pais para isso. Claro que os pais ajudaram. Mas não suportaram tudo. Ajudaram apenas.

Foi uma conversa bastante animadora. Admirei a maturidade e a força de vontade deste Pedro mas, ao mesmo tempo, fiquei com pena que nem todos os jovens adultos pensem assim.

Love Boat

IMG_0859.JPG

No outro dia, quando cheguei à praia (já vos disse que estou de férias?) vi este barco na rampa. Feito com todo o cuidado, uma miniatura de tantos barcos de andam no mar, à pesca, e que saem aqui de Sesimbra, das docas. Tiramos a foto e depois perguntamos, aos jovens que estavam por perto, se sabiam quem o tinha feito. Um deles, com cerca de 15/16 anos respondeu que tinha sido ele próprio. Claro que lhe demos os parabéns, o barco está perfeito.

Só não sabíamos ainda o quanto..

É que o Danilo - assim se chama o autor deste projecto - levou o barco até ao mar e meteu-o dentro de água. E não é que navegava na perfeição? até tinha uma ancora de modo a ficar preso a um deles para não navegar por esse mar fora.

Um espectáculo, digo-vos eu! um espectáculo. Nesse dia, a minha ida à praia valeu ainda mais por ter visto esta beleza e a ter visto a navegar.

Parabéns, mais uma vez, Danilo!

 

Um dia isto tinha que acontecer

Captura de ecrã - 2011-02-15, 21.34.01.png

Já o disse aqui, hoje em dia não há Pais maus o suficiente. Pais que cumpram o seu papel de educadores, pais que ensinem os seus filhos que nem tudo nasce no chão e que é preciso lutar para ter o que se deseja, pais que exigem respeito (e que se dão ao respeito). Hoje a educação é feita de facilitismos, é feita de exigências erradas. Muitos, mas mesmo muitos pais, pensam que a educação é dada nas escolas e é aos professores que a exigem. E quando os seus rebentos não são educados, ouve-se à boca cheia – não sei que raio de educação lhes dão na escola?

Errado caros pais, errado. A educação dá-se em casa. E não é com facilitismos, é com exigências. É ensinando as crianças que o mundo pode ser delas se elas o respeitarem, se elas o souberem conquistar. É sabendo dizer-lhes que não, que não podem fazer isto, ou que não podem responder aquilo, ou que não podem ter todos os bonecos ou jogos que querem. É ensinar que há conquistas que sabem melhor porque temos de lutar por elas e que, quando uma porta se fecha, temos de procurar a janela. É dar-lhes asas, ensiná-los a voar, mas não o fazer por eles. É deixa-los cometer os seus próprios erros para que aprendam com eles e não querer que aprendam com os que nós cometemos.

Enquanto os pais desta geração não perceberem que a culpa dos filhos estarem à rasca é deles – dos pais – e enquanto se demitirem dessa função inerente a ser pai – a de educadores, vamos continuar a ter jovens mal educados, mimados e sem nenhum sentido na vida. Que futuro terão eles – os jovens – habituados a ter tudo e não ter de lutar por nada, quando chegarem à idade adulta e ao mercado de trabalho e tiverem de lidar com frustrações e com revezes na sua vida?

Mais uma vez, valia a pena pensar nisso.

Mas antes leiam, por favor, a crónica abaixo de Mia Couto sobre este mesmo tema, ele explica, magistralmente, este tema.

Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.

Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.

A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.

Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1.º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.

Foi então que os pais ficaram à rasca.

Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.

Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.

São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.

Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.

Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.

Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.

Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?

Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!

Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja! que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.

Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.

A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.

Haverá mais triste prova do nosso falhanço?

 

Nota às 10h55

Parece que este texto entre aspas não é de Mia Couto. Obrigado a quem me alertou. De qualquer forma, o texto é excelente, também não é meu, e fica aqui.

Mais uma nota, agora às 12h37

O seu a seu dono. Já me ajudaram e identificaram a autora - Maria dos Anjos Polícia do blog Assobio Rebelde. Obrigado a quem identificou.

bullying e violência entre jovens

bully3.jpg

É o vídeo e o tema do momento – bullying e violência entre jovens, enquanto outros assistem sem fazerem coisa alguma. E o debate começa – de quem é a culpa? Dos pais? Da escola? Deles próprios? E a seguir? Resolve-se a violência com mais violência? Vamos todos espancar quem bateu ao miúdo? E isso não será ainda mais violência?

A Maria pergunta, e bem, se a culpa é dos pais? Eu direi que sim. Que uma boa parte da culpa é dos pais. E porque? Porque estão a criar uma geração de falhados como explica a Raven, uma adolescente que pertence precisamente a esta geração de adolescentes que está habituada a ter tudo e a não ter de lutar por nada. Uma geração que vive o momento, que não respeita nada nem ninguém, precisamente porque os pais não os ensinaram a isso. E são depois, esses mesmos pais que dizem, quando vêem situações destas, que não foi essa a educação que dei à minha filha e que ficam muito admirados quando os filhos estão envolvidos, de alguma forma, em situações de Violência escolar.

Muitos pais ainda pensam que a educação é dada na escola. Não podiam estar mais enganados. A educação é dada pelos pais. A escola ensina. Ensina as matérias que as crianças vão precisar ao longo da sua vida, não os educa. A educação tem de vir de casa. E muitos pais/educadores esquecem-se disto.

Por outro lado, e como diz o Miguel Dias (e também bem), no seu post Eu...é mais bullyings!, estas situações sempre aconteceram. O que acontece é que hoje, em que o Mundo é, verdadeiramente, uma Aldeia e onde a informação corre por ai como as poeiras do Saara, há mais divulgação e menos aceitação. Não que seja necessariamente mau, mas não podemos é dizer que nunca aconteceu.

Ora bolas, eu tenho 44 anos e cheguei a assistir a cenas destas na escola secundária. Mas fruto da educação que os meus pais me deram, não assisti apenas, fiz queixa. Fui ao conselho directo. Chamei as auxiliares. Falei com professores. Mexi-me para evitar que voltassem a acontecer. E foi isto que também transmiti aos meus filhos desde o primeiro momento. Que devem intervir sempre que vêem alguém a ser vítima de violência, seja ela de que modo for. Esta é a educação que lhes dou. E sei – porque já aconteceram casos desses – que é isso que eles praticam. Por isso digo que a culpa do que acontece naquele vídeo e noutros casos também é dos pais.

É muito culpa dos pais. Dos pais dos agressores e dos pais dos agredidos. 

Porque muitos pais se esquecem que os filhos são deles. E por isso devem estar presentes. Devem acompanhar os filhos, perguntar sempre o que fazem, como fazem e com quem fazem. Não em jeito de interrogatório mas com calma, com paciência para tentar saber tudo. E se notarem alterações de comportamento, ainda mais necessária é a vossa intervenção. Pensem que, numa escola, são centenas de miúdos e dezenas de adultos, o que torna impossível que os professores e/ou auxiliares vejam tudo.