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Stone Art

Coisas soltas da vida que povoam o meu quotidiano. Sem amarguras nem fatalismos, com aceitação, simplicidade, ironia e alegria. Sejam bem vindos a esta minha casa.

Saúde para todos ou só para alguns?

Não gosto de falar dos meus problemas de saúde. Não faço alarido das idas ao médico, dos exames que tenho de fazer ou das dores tenho. É tema privado, ao ponto de, mesmo com a família, só falar do assunto de vez em quando ou quando sei que está tudo bem.

São feitios.

Mas hoje tenho mesmo de falar sobre isto. Sobre um problema de saúde que me afecta neste momento e na incapacidade de saber exactamente o que se passa porque não caibo numa máquina…

Ando, há coisa de um mês, com problemas na perna direita. A perna prende ao nível da anca e tem alturas que não consigo andar. As dores podem aparecer a qualquer momento, a dormir, acordada, a andar, parada, a conduzir, sentada, levantada... Enfim, não tenho sossego nem uma vida normal porque a perna me impede de fazer as coisas mais simples como calçar um sapato, subir umas escadas ou dormir uma noite de seguida. Já fiz uma ecografia que foi inconclusiva e agora mandaram-me fazer uma ressonância magnética a ver se aparece a causa deste problema. Como tenho os SAMS/SIB comecei por marcar a ressonância no Hospital da Luz mas a primeira vaga era apenas para quase 15 dias mais tarde (dia 18/9, domingo). Como tenho urgência em tratar-me e para isso é necessário saber o que se passa, resolvi contactar outras entidades para fazer o exame mais cedo tendo marcado ontem para fazer hoje às 8h o exame na Crear aqui em Lisboa. Cheguei lá em jejum, despi-me (num cubículo de tal maneira pequeno que, estando de frente para a porta, os meus ombros quase que batiam nas paredes laterais), vesti a bata e lá fui para a máquina. E depois de duas tentativas de me meterem dentro da máquina – eu e a antena do aparelho – a assistente, muito simpaticamente, disse-me que eu não cabia na máquina e que não podia fazer o exame. Teria de procurar um local com uma máquina maior.

Ora eu sei que sou gordinha. Não chego à obesidade mórbida mas já tenho obesidade grau III. Tenho uns 45/50 quilos a mais do que o devido, apesar de não parecer tanto porque até sou altinha (1m74). 

Aparentemente, não faço parte do padrão que alguém achou que devia ser o normal para as mulheres portuguesas. Já é habitual sentir isso quando quero comprar roupa (qualquer tipo de roupa), quando quero andar nos autocarros (sobram-me pernas depois de acabar o espaço entre os bancos) ou nos aviões (pela mesma razão dos autocarros) mas nunca o tinha sentido desta forma na saúde.

Bem sei que podia ter recorrido ao SNS. Mas vamos lá pensar um bocadinho. Se, para dois bypass coronários, o meu marido esperou quase um ano, se há quem esteja há três meses à espera para uma mamografia, quanto tempo acham que eu teria de esperar por uma ressonância magnética à anca? E que garantias tenho eu que caibo dentro do aparelho onde vou fazer esse exame?

Sinto-me desanimada, confesso. Por ser alta, por ter excesso de peso, por sair do padrão, por não me poder vestir como gosto, por não poder andar nos autocarros ou aviões à vontade. Mas mais do que isso, sinto-me muito mal por querer tratar da saúde – que dizem que é um direito universal – e não me deixarem.

Provavelmente deveriam ter acrescentado nos direitos fundamentais, que a saúde só é garantida para quem está nos tamanhos padrão.

2015 em revista

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Na última semana do ano impõe-se uma reflexão sobre o ano que está a terminar. É capaz de ser um bocadinho longo mas, pronto, enfim, sempre resume 365 dias por isso tenham lá paciência.

Blogosfera

Neste blog o post mais visitado em 2015 foi um dia isto tinha que acontecer, o que teve mais favoritos foi como se mede o sucesso de um blog? e o mais comentado foi Peditórios e afins.

Nasceu, este ano, o Stoneartbooks dedicado exclusivamente a uma das minhas maiores paixões - os livros e a leitura. É nele que vou partilhando as minhas críticas aos livros que leio mas não só. Tudo o que se relaciona com livros é lá que encontram.

2015 viu também nascer um novo projecto. A Inominável, uma revista on line com uma equipa fabulosa. Leiam e encantem-se.

Começou em 2014 mas, em 2015 ganhou casa própria. Falo do Aprender uma coisa nova por dia, um blog de partilha de conhecimentos.

Fui convidada para o Meet the blogger onde fui buscar inspiração para No Blog com.... 26 convidados até agora, numa partilha muito engraçada.

Também em 2015 comecei, mensalmente, a dar a conhecer a quem me lê aqueles que foram, para mim, os destaques do mês. Todos os meses escolho cinco posts de outros blogs dos quais gostei bastante.

Amizade

Por causa do blog conheci pessoas fantásticas. A Seita do Arroz, o Clube das Pistosgas, a Vanessa e a Just são alguns dos exemplos - são as pessoas que me estão mais próximas e que provam que a amizade pode nascer apesar da distância. Mas não só. A blogosfera tem pessoas extraordinárias, e é impossível nomear aqui todos aqueles que gostaria, até porque, de certeza, que me esqueceria de alguém.

Televisão & Cinema

Não estou horas perdidas à frente da televisão. Irritam-me os anúncios que me fazem esquecer o que estava a ver e irrita-me as repetições exaustivas dos mesmos filmes e episódios de séries. Optamos, por isso, cá em casa, pela gravação e vamos vendo conforme nos apetece. No ano que passou quatro séries tornaram-se as minhas favoritas:

How to Get Away with Murder é uma delas. Annalise é uma advogada de defesa que dá aulas e que escolheu, dos seus alunos, um pequeno grupo para trabalhar no seu escritório. Quando a vida de Annalise começa a colapsar por causa do marido, os alunos que trabalham com ela são envolvidos num série de acontecimentos inesperados. A cada episódio surgem novos desenlaces, novas versões da mesma história, deixando sempre algo em aberto para o episódio seguinte. Viciante, excepcionalmente bem interpretado e desafiador. Uma série que recomendo a toda a gente.

Quantico conta-nos a história de um grupo de jovens que se candidataram ao FBI e que estudam em Quantico. Em dois momentos temporais - no tempo de aulas e uns meses mais tarde, quando Alex é incriminada por um ataque terrorista - vamos, aos poucos, percebendo as diferentes motivações para que os diferentes personagens se candidatassem ao FBI. Nada pode ser dado como garantido nesta série, as surpresas são constantes e as alianças fazem-se e desfazem-se. Uma série cheia de surpresas e de inesperados. A ver.

Bem Vindo a Beirais, uma série portuguesa, com certeza. E com qualidade. Recomendada dos 8 aos 80 anos. Um humor simples, a fazer-nos recordar o Pátio das Cantigas (a primeira versão), O Leão da Estrela (a primeira versão), O Costa do Castelo, O Pai Tirano e tantos outros da mesma época, em que o humor era feito de trocadilhos e muito pouco rebuscado. Pensado inicialmente para ter apenas uma duração de três meses, o sucesso alcançado levou a que a RTP prolongasse a série por quatro temporadas. Mas em Março de 2016 terminará aquela que é, sem dúvida, a melhor série portuguesa de sempre.

Scorpion é baseado na história verídica de Walter O'Brien, preso aos 11 anos por ter entrado no site da NASA para ir buscar fotos do Vaivém espacial para decorar o seu quarto. Walter tem o quarto QI mais alto alguma vez registado - 197 e trabalha com mais três génios na Scorpion, colaborando com o FBI na resolução de vários casos.

Em 2015 vi, finalmente, todas as temporadas da série de que todos falam. Game of Thrones foi, para mim, uma desilusão mas acredito que isso se deverá ao facto de ter lido os livros primeiro e de se ter perdido o efeito surpresa.

Quanto a filmes, raramente vou ao cinema, aproveitando as férias para ver os filmes no meio dos livros e, muitas vezes, fico desiludida com os filmes. Sem dúvida que A Rapariga que roubava livros foi o melhor dos filmes que vi este ano. Dos outros pouco me lembro e, daqueles que me lembro, preferia esquecer (como é o caso da Viagem ao Infinito (A teoria de tudo) uma vez que o filme altera quase todo o livro).

Livros

58 livros lidos em 2015 e sobre os quais falo aqui. Foi também o ano em que as minhas Viagens viram a luz do dia.

Família & Saúde

Uma broncopneumonia a terminar o ano e a deixar-me completamente de rastos. Nunca me tinha sentido assim mas há que pensar que, apesar de tudo, o nariz não entupiu, contrariamente ao que é hábito.

O maridão foi sujeito a dois bypass coronários. Um ano após o inicio dos sintomas e do nosso périplo por salas de espera dos hospitais, a operação aconteceu e tudo correu bem. Espectacular equipa a do Hospital de Santa Marta.

O meu pai teve um AIT mas como é teimoso, foi ao hospital apenas dois dias depois. Felizmente tudo correu bem mas podia não ter corrido. Não sejam teimosos, se tem sintomas estranhos vão ao médico! Pode não ser nada mas pode ser tudo.

A minha tia foi internada com uma infecção respiratória nos últimos dias de Novembro. Passou a infecção e na noite de Natal aqui estava ela em casa fresca e fofa como sempre.

Apareceu um nódulo na Bunny. Foi operada ontem e está a recuperar aos poucos. Não é nada de cuidados, é só esperar pela recuperação da cirurgia. A Saphira teve toxoplasmose, foi um extenso tratamento mas felizmente não ficaram sequelas.

Depois de uma zanga por motivos parvos, que não são para aqui chamados, e que já durava desde 2009, a reconciliação com os meus sobrinhos mais velhos aconteceu. Os primeiros passos foram dados antes mas o reencontro foi no dia de Natal, tornando-o ainda mais especial. 

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Em suma, 2015 foi um excelente ano. Para mim e para quem está desse lado, desejo apenas que o pior de 2016 seja o melhor de 2015. E que continuemos todos por aqui.

 

Há médicos e não-médicos

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Já falei aqui sobre a minha Doença de Crohn mas creio que nunca contei como me foi diagnosticada. 

Sei que o texto vai ser longo mas peço que o leiam até ao fim. Em duas vezes se for preciso. É que é preciso, muito preciso mesmo, perceber que há médicos e há não-médicos.

Não sei dizer ao certo em que ano comecei a ter problemas mas recordo-me que fui parar algumas vezes ao hospital com imensas cólicas, gazes, diarreias que não passavam, dores abdominais de fugir.., Por norma, finais de Julho, princípios de Agosto era certinho que eu ia lá parar. Os médicos viam-me, faziam umas análises ao sangue, não detectavam nada e achavam que seria uma colite. Mandavam-me para casa, a coisa melhorava e, no ano seguinte, voltava a acontecer, mais ou menos na mesma altura.

E por uns cinco ou seis anos aconteceu assim.

Quando aconteceu a Expo'98, eu ia quase todos os dias para lá. E num dos dias - em finais de Junho - comecei com os sintomas. Tentei aguentar-me ao máximo, afinal queria mesmo ver tudo e mais alguma coisa da Expo, mas, por fim, desisti e fui mesmo ao Hospital. Estava de tal modo que a minha mãe, na véspera da ida ao hospital, ao ver-me ao longe, disse a uma amiga - a minha filha está grávida e não me quer dizer. Não estava, estava apenas inchada que nem um peru em véspera de Natal.

Na manhã seguinte, no hospital, contei à médica os sintomas que tinha e o facto da história ser recorrente, ela achou estranho e disse-me que, apesar das análises não mostrarem nada de especial, gostava que eu fosse vista por um médico de cirurgia para ter mais certezas. Mas que o médico que ela achava que me devia ver só estava no hospital por volta das 16h, hora a que ela já não estaria e que implicaria uma espera de umas seis horas. Certo, disse eu, vou almoçar com calma, levo o meu livro e estou aqui às 16h. E assim fiz.

Quando regressei ao hospital ia a pensar com os meus botões que, das duas uma - ou o médico não fazia ideia que eu lá ia, ou iria ter de repetir de novo a história. Enganei-me redondamente. Passados alguns minutos de me ter identificado fui chamada ao gabinete do médico. Ele tinha o meu processo à frente e disse-me que sabia o que tinha contado à primeira médica e que, por isso, não me ia demorar, queria apenas fazer-me algumas perguntas. Lá respondi e, no fim, ele disse-me que não, não era caso para ele, pelo menos para já, mas que deveria ir a um gastrenterologista. Mas olhe - disse ele - não é a um qualquer, é ao Dr. P. que é o maior especialista aqui do hospital. Certo, assim farei. Onde marco a consulta? Pois que não foi preciso, o médico disse-me apenas para aparecer, três dias depois, no dia da consulta do Dr. P e dizer que ia da parte dele para ser atendida. 

Bom... no dia (lembro-me perfeitamente que era uma quinta-feira) lá voltei ao hospital e ia com a mesma sensação - ou ninguém sabe o que se passa ou vou ter de explicar tudo. Voltei a enganar-me. Logo que disse à enfermeira que vinha da parte do médico (não me recordo o nome) ela disse-me logo que sim, que estavam mesmo à minha espera, que o Dr. P até tinha dito para eu ser logo atendida assim que chegasse. Pasmei!

Quando entrei no gabinete o Dr. P disse-me que sabia a minha história e que queria ainda esclarecer mais coisas. Esclareci, bastante agradada por tudo o que se tinha passado até ai. Marcamos os exames em falta - que ele quis fazer pessoalmente - e, passada uma semana, após os exames, lá tive o diagnóstico e o tratamento. Doença de Chron, fase embrionária. 

Não fosse esta sequência de médicos, daqueles a sério, e, provavelmente eu teria continuado a ser medicada para algo que não tinha, e a doença teria continuado o seu percurso sem tratamento. Entre os tratamentos e a gravidez, a doença regrediu de tal forma que, nos últimos exames, não é detectável.

Dado este exemplo do que é ser um bom médico, um médico a sério, um médico que honra a sua profissão, tenho de vos contar o que se passa com uma amiga.

Há dois anos atrás, naquelas consultas de rotina, fez alguns exames. Ecografia ginecológica, mamografia, papanicolau. Tudo exames que devem ser feitos de x em x tempo e que permitem diagnosticar, a tempo, algum problema mais sério que possa aparecer. Quando fez os exames foi-lhe dito, pela médica e por quem fez os exames, que esteja descansada que, caso haja algum problema nós contactamos. Se não dissermos nada é porque está tudo bem. 

Ninguém ligou e ela ficou descansada.

Entretanto esteve doente, teve gripe, teve renite, a filha e o filho adoeceram, o marido idem. E todos foram à mesma médica, normalmente até com ela que gosta de os acompanhar. E nada lhe disseram. 

Esta segunda-feira o marido foi ao médico e a minha amiga foi com ela. Pelo meio da consulta pergunta-lhe a "médica", então quem é que a está a acompanhar, no hospital, por causa do carcinoma? ou não tratou disso?

Como? Carcinoma? Quem?...

A moça, a minha amiga, claro que ficou em choque.  Afinal descobre assim, por acaso e acidente, que tem um carcinoma há dois anos e que não foi avisada.

Claro que a reacção da médica foi logo mandar tudo para o hospital... ou então não. Porque, quando, ontem, a minha amiga lhe perguntou se já tinha mandado as coisas para o hospital, a resposta foi, e passo a citar "não percebo a sua pressa. Quem esperou dois anos pode esperar mais uns dias". E ainda acrescentou "era grau um, não se preocupe"

Achará a senhora médica de profissão que um carcinoma é um dente que tem de ser arrancado? ou que não evolui?

Para onde caminhas, Serviço Nacional Saúde, quando, para além das filas de espera para operações ao coração, ainda tens médicos que têm atitudes destas?

 

(Nota - carcinoma é um tumor maligno desenvolvido a partir de células epiteliais)

Para onde caminhas, Serviço Nacional Saúde?

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Vamos aqui fazer um exercício imaginário. Sentem-se calmamente, peçam um café e acompanhem este exercício que pode ser um bocadinho longo.

Imaginemos então que uma pessoa, em Agosto do ano passado, começava a sentir pontadas a mais no peito e um cansaço extremo quando fazia o mínimo exercício. Juntemos-lhe tensão alta e um irmão falecido por uma dissecção (será assim que se escreve?) da aorta e temos o primeiro quadro clínico da pessoa em causa.

Estão a visualizar?

Então continuemos. Imaginemos ainda que essa mesma pessoa, chamemos-lhe Joaquim (e daqui a pouco vão perceber porque escolhi o nome da personagem representada pelo Miguel Dias na fantástica série Bem Vindos a Beirais) tem a sorte de ter um subsistema de saúde que lhe permite o acesso a hospitais privados e que, por isso, teve, rapidamente, consulta de cardiologia com uma médica bastante acessível e que lhe mandou fazer vários exames, entre eles um TAC ao coração. Rapidamente e porque o subsistema continua a permitir, o exame é marcado num hospital de referência no combate à obesidade.

Confusos por esta referência à obesidade quando se fala em coração? Pois, é que os direitos dos mais altos e dos mais pesados são esquecidos em quase todos os hospitais. E como o nosso Joaquim tem 1m93cm e pesa 160 kg, não pode fazer o TAC e é recomendado que a médica mande fazer outro exame.

Continuamos, é claro, no mundo imaginário e já estamos em Novembro. Foram feitos vários exames, todos pelo subsistema de saúde – porque o nosso Joaquim tem essa sorte, a de ter um subsistema de saúde que lhe suporta estes custos – mas o exame que a médica manda fazer em substituição do TAC só pode ser feito num hospital público, chamemos-lhe hospital Um.

Um mês mais tarde, o Joaquim lá vai fazer uma coronariografia (é assim que se escreve?) e sai de lá com um verídico – precisa de fazer um bypass porque uma das coronárias está totalmente entupida.

Continuemos no reino do imaginário e imaginemos que o Joaquim contacta o seu subsistema para saber se esta operação é comparticipada se a fizer num hospital privado. Pois que não, pois que não se brinca aos corações nos privados, é operação a fazer num hospital público – seja no Hospital Um, Dois ou Três (é que, aparentemente, só há três hospitais, a sul do Mondego, capazes duma operação desta envergadura a um homem da envergadura do Joaquim). No privado aceitam operar, tem 1% ou 2% de risco mas o custo… o custo, no mínimo, será de € 25.000,00 para começar. Vão-se os anéis, ficam os dedos, dizem, mas para isso há que ter anéis…

Estamos em Junho e finalmente consegue-se uma consulta no Hospital Dois. Porque se esperou por uma consulta no Hospital Três que não veio e acabou por se mandar os exames e tudo por email para o Hospital Dois que, dois dias depois do envio do email, marcou a consulta de cirurgia para a semana seguinte. Foram rápidos.

E agora continuemos a imaginar.

Imaginemos agora que o Joaquim vai à consulta de cirurgia e que o cirurgião confirma todo o diagnóstico anterior e que sim senhor, precisa de ser operado. Assine aqui por favor e vá para casa esperar. Esperar dois ou três meses que a fila de espera tem cerca de 300 doentes à frente, alguns – mais do que desejávamos – em situação mais grave que a sua. Por isso espere, não desespere, e aguarde. Haveremos de o operar, só não lhe sei dizer é quando.

Conseguiram imaginar até aqui?

E se vos dizer que isto é a realidade? Que o que imaginaram é uma situação real? E que há doentes do coração à espera vários meses para fazerem operações que, se feitas de imediato, podem ser simples e que, quanto mais tempo esperam, mais complicadas se podem tornar? Que o sistema nacional de saúde – aquele para o qual descontamos – trata as operações ao coração (órgão vital) como se fosse uma operação ao menisco ou a uma hérnia? Que os cardiologistas, os cirurgiões, não sabem como explicar a doentes e familiares que podem morrer à espera de vez? E que muitos morrem mesmo porque não foram assistidos a tempo?

Para onde caminhamos, com este descuido, esta falta de consideração, pelos doentes – sejam eles do coração ou não?

Afinal e bem vistas as coisas, o maior doente é o SNS e precisa duma intervenção urgente!