Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Não vou dar fome à minha filha

por Magda L Pais, em 21.02.08
Foto de JJS de Graaf

Esta é frase imperativa, de um filho em resposta às necessidades da sua mãe doente de AVC “não vou dar fome à minha filha por causa da minha mãe”. Esta mãe de quem eu falo e passo a citar aqui, será um exemplo de muitas por esse mundo fora. Uma lutadora que sempre protegeu as suas crias, que passou fome, frio, as mágoas de uma vida sofrida para criar e educar da melhor forma possíveis os seus rebentos. A preocupação era sempre a mesma, como sobreviver mais um mês para que nada lhes falte?Limpou escadas, trabalhou em casa das senhoras que lhe davam para lanchar, um pão com bolor e um chá meio frio, trabalhava horas a fio em troca de uns trocados. Tinha que aceitar todas as condições pois as carências eram muitas, não podia reivindicar nada vezes nada, porque a porta da rua estava sempre aberta para quem não estivesse satisfeito. Não conseguiu sequer garantir uma reforma mínima por falta dos descontos que lhe eram negados, foi-lhe atribuída a mínima quando fez 65 anos de idade, uma quantia de 150 euros, até lá vivia com uma pensão de sobrevivência de 100 euros. Hoje com 71 anos vive com 350 euros por mês e com muitas necessidades devido ao seu estado de saúde. Este filho a quem a mãe nada lhe deixou faltar nem mesmo amor, não é rico nem pobre, é só mais um daqueles que casou e passou a ser filho de pais incógnitos esqueceu-se que um dia teve uma que mãe lhe deu a vida com muita honestidade. Esta mãe deu à luz seis filhos, perdeu dois entre a doença e a miséria mas contendeu com todas as forças por todos de forma igual, agora não passa de um peso, inutilizada, dependente de tudo e de todos. É com muita honra que digo esta é a minha mãe, de quem eu cuido com muito amor, com o mesmo que ela sempre nos deu. Não me admira que a sociedade e o governo desprezem estas situações, quando os próprios filhos rejeitam e negam ajuda aos próprios pais. Talvez se lembrem deles no dia dos fiéis.

“Crimes contra idosos e crianças prioritários na investigação”
Aproveito ainda para deixar aqui uma questão de índole geral e um alerta para a população... (respeitando a nova lei que já deveria ser prioritária há mais tempo).
Não será crime o abandono, desprezo e falta de dignidade que alguns familiares praticam com os seus progenitores? Eu dirijo-me especialmente a este drama, porque cada vez mais me deparo com situações destas e as estatísticas falam por si. Idosos doentes, cheios de carências afectivas e financeiras deixadas à sua própria sorte. Desculpem-me a expressão “levem os empecilhos que já não fazem cá falta nenhuma”, mas a sensação que o meu ser sente é esta, sei do que falo. Para quem conhece as leis e porque neste momento vivo este dilema, deixo aqui um apelo: Não desistam de lutar... embora a luta seja uma eternidade nos tribunais! Um filho que decida tomar conta dos pais acamados ou debilitados sem capacidades financeiras para o fazer, tendo irmãos com possibilidades financeiras é abandonado por completo pelo Estado. As soluções que nos são apresentadas são: colocá-los num lar social ou entrar com um processo em tribunal de pedido de pensão de alimentos aos outros filhos.
Mas se o progenitor(a) estiver incapacitado(a) psicologicamente para o fazer, então aí não basta um processo mas dois: 1º- acção de interdição e o 2º- acção de pedido de pensão de alimentos. O 1º processo consiste em provar que o seu pai ou mãe não está nas suas faculdades mentais, e consequentemente, necessitará de um tutor que a represente no 2º processo. Mas como os processos não seguem em conjunto para o mesmo sector jurídico, por vezes confundem-nos, como se o nosso intuito fosse, apoderar-nos das fortunas dos nossos pais. O 2º processo só pode iniciar depois de ser dada a tutela ao filho que tenha feito o pedido de interdição e que esteja a cuidar do seu progenitor. Neste momento vivo esta situação só porque me recuso a meter a minha mãe num lar social e porque infelizmente tenho uns irmãos que não me ajudam a nível financeiro nem sequer psicológico, para que eu possa refazer a minha vida, em termos profissionais. A minha mãe foi vítima de AVC há cinco anos e a dor que senti ao vê-la assim não tem explicação possível nem dinheiro nenhum paga tanto sofrimento... Como a ajuda dos meus irmãos foi nula, pedi ajuda à assistente social, para que me arranjassem alguém que pudesse tomar conta dela para eu poder trabalhar e proporcionar-lhe melhores condições para a sua doença, mas tudo isto me foi negado, porque tenho irmãos. Com todo este sufoco, dei-lhe tudo o que tinha: o meu amor! Hoje passados cinco anos tenho tido a recompensa, ela continua dependente de mim para tudo mas deixou de ser um vegetal. O 1º processo ainda continua no tribunal desde de 2004, à espera de um novo juiz. Já estava em fase final mas como transferiram o juiz que estava a tratar do caso, o processo ficou parado. Não sei por mais quanto tempo irei ter que esperar por uma nova resposta para poder dar andamento ao 2º processo.
Será que estão à espera que ela morra para arquivarem o processo? Deixo esta mensagem a todos que padecem com este tipo de problema, mas não desistam! Embora tenha momentos de desespero agarro-me ao amor que recebo todos os dias de uma mãe que já consegue sorrir e dizer “adoro-te minha filha”.
Abandonar a minha mãe num lar social é que não!
Apesar de ela ter passado muitas dificuldades para nos criar, nunca meteu nenhum filho num orfanato.
Esta é uma crónica da vida real. A Conceição Bernardino, do blogue http://amanhecer-palavrasousadas.blogspot.com está a viver esta situação. Quando tornou público os problemas que está a ter por causa da sua mãe e irmãos não foi, e não é com a intenção que tenham pena dela. Quer apenas apoiar quem passa por situações semelhantes e que não tem coragem de denunciar esta situação.
Ao colocar esta crónica aqui, no meu blogue pretendo, em primeiro lugar, homenagear a minha amiga, esta excelente pessoa que sacrificou tudo pela mãe. Tal como a mãe fez por ela e pelos irmãos. Quantos idosos andam por ai aos trambolhões porque não tem uma filha ou filho que os ame e que deles cuide como a São está a fazer.
Depois, e tal como ela, é uma forma de apoiar quem passa pela mesma situação e não tem coragem para tomar as medidas drásticas que a São tomou. Porque acreditem que não é fácil.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor








Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.