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Foi mais ou menos em 1988 (século passado, portanto), ou seja, há mais ou menos 27 anos (mais coisa menos coisa) que comecei a fazer a travessia Barreiro/Lisboa/Barreiro de barco. De manhã para Lisboa, à tarde para o Barreiro.
Nestes 27 anos houve várias coisas que mudaram.
Há 27 anos atrás o barco estava dividido em classes – a primeira e a segunda. Na segunda classe os bancos eram de suma-a-pau, que é como quem diz de madeira. Duros que só visto. Na primeira classe os bancos eram de napa, bastante mais macios. Quem tinha o passe, como eu, só viajava na primeira classe se pagasse o excesso. Lá andava o revisor a verificar quem tinha o bilhete de primeira ou quem tinha de pagar o excesso. Uma das coisas que havia nas duas classes eram os cortinados. Muito nojentos, com todo o tipo de bichos a passear neles.
(lembro-me de, um dia, que ia a dormir no barco, abrir os olhos e ver um senhor quase a atirar um livro directo á minha cara e que me passou mesmo ao lado… o senhor tinha visto uma barata a passear mesmo perto da minha cabeça e quis matá-la)
Hoje não há classes nem cortinados. Os bancos são todos de plástico, menos confortáveis mas mais laváveis (e acreditem que, com a falta de cuidado que os utentes tem, ainda bem que são mais laváveis).
Há 27 anos atrás, em condições normais, a viagem demorava 30 minutos. E hoje, em condições normais demora 20 minutos.
Há 27 anos, quando estava um dia de nevoeiro – como hoje – a duração da viagem era uma incógnita. Podíamos demorar uma hora ou mais. E hoje, 27 anos depois, muitas mudanças depois, num dia de nevoeiro, como hoje… a duração da viagem continua a ser uma incógnita. É extraordinário, pela negativa, que tenha havido tanta evolução em todos os sistemas e que haja radares e o diabo a sete mas que os barcos que fazem a travessia Barreiro/Lisboa/Barreiro continuem, como no século passado, a demorar o dobro do tempo (quando não mais) a fazer o mesmo trajecto.
E de quem será a culpa? Dos utentes não é certamente, até porque, muitos de nós, querem é chegar rapidamente ao destino e que, por culpa do nevoeiro, não o conseguem fazer.
Tantas greves parvas (a grande maioria delas, diga-se) que os trabalhadores da Transtejo fazem e tanta luta, será que não podem fazer uma para que os radares funcionem? Ou será que não a fazem porque os radares funcionam, eles é que não sabem trabalhar com eles?
Hoje, 27 anos depois do início das viagens regulares de barco para Lisboa, senti-me transportada no tempo e voltei a estar 40 minutos na estação do Barreiro à espera dum barco (em hora de ponta) e a viagem demorou 45 minutos. E tudo porque a manhã estava como se pode ver na foto.
Se calhar valia a pena alguém, na Transtejo ou nos Sindicatos, pensar nisto.
Despeço-me com amizade (a minha singela homenagem a mais um ícone da minha infância que desapareceu hoje – o Eng Sousa Veloso).
(Inauguração)
(antes)
(hoje)
As fotos acima mostram a estação fluvial Sul e Sueste, em Lisboa, no Terreiro do Paço. Mostram como era e qual é o seu estado actual.
Este edifício foi projectado por Cottinelli Telmo e foi inaugurado em 28 de Maio de 1932. Para além da beleza exterior, no seu interior podíamos ver painéis de azulejos com os brasões de várias cidades alentejanas e algarvias.
Em 2 de Novembro de 2012 foi considerado monumento de interesse público.
E hoje, em Outubro de 2014, uma das mais emblemáticas estações de Lisboa, está votada ao abandono. Os painéis que existiam estão perdidos, algures num armazém do metropolitano de Lisboa (supostamente) e o seu exterior está num estado deplorável.
Sou só eu que não entendo como é possível, num país supostamente civilizado, abandonar-se assim a nossa história, abandonar um momento de interesse público? Será que, um dia, vão fazer o mesmo à Gare do Oriente?


O por do sol de ontem e o de hoje


Tal como este nascer do sol de hoje :)
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