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Avô é pai com açúcar*

por Magda L Pais, em 10.02.17

Passei parte da minha infância e adolescência com os meus avós maternos. A casa deles era quase na mesma rua da casa dos meus pais, e sempre que eles estavam a trabalhar, eu ia para casa dos meus avós. Ele, o meu avô Manuel, era o meu herói. A paciência que ele tinha para a rezingona da minha avó (eu tinha de sair a alguém, certo?) era notável. O amor que ele punha nas torradas que fazia para as netas e para o neto fazia com que nos empanturrássemos sempre que ele estava em casa (isto quando ele não saia, a meio da tarde, para ir a casa dos meus pais levar-nos torradas acabadinhas de fazer para o nosso lanche). Cozinhava que era uma delícia (era o amor que punha em tudo quanto fazia que tornava tudo ainda melhor).

A minha avó Alcide era a matr(i)aca da família. Sempre a resmungar (ou melhor, só o fazia por duas razões – por tudo e por nada). Nada estava bem, nada prestava e estava sempre mais doente que os outros. Imensos defeitos, numa pessoa que nos amava acima de tudo e para quem, a melhor coisa que podia acontecer, era os netos estarem lá em casa (de preferência enfiados na cama dela a fazer-lhe companhia enquanto resmungava com a televisão). E era por esses defeitos que os netos lhe retribuíam o amor na mesma medida que ela nos dava.

“Lá está o advogado de defesa” era a frase mais ouvida naquela pequena casa, quando a ti Alcide resmungava connosco e o ti Manuel nos defendia. Nós riamos e sabíamos que era quase impossível sermos mais amados que ali, onde tudo era à nossa medida, abraços, carinhos e resmunguice incluídos.

E sou quem sou e como sou precisamente por isso. Porque os meus avós fizeram parte integrante da minha infância e adolescência. Porque quero sempre ser melhor para que eles continuem a ter orgulho em mim, estejam eles onde estiverem.

Só tenho de lhes agradecer também por isso.

(e por me terem dado a melhor história de amor que conheci)

 

*(in Arroz de Palma de Francisco Azevedo)

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13 comentários

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De Maria das Palavras a 10.02.2017 às 12:31

Os meus avós maternos também foram meus pais com açúcar (que expressão maravilhosa do Francisco Azevedo) e moraram durante muitos anos na casa por cima da nossa. 
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De Magda L Pais a 10.02.2017 às 13:25

Todo o livro do Francisco Azevedo é feliz nas expressões relacionadas com a familia.


:)
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De miss queer a 10.02.2017 às 14:05


obrigada pela partilha, Magda! é um texto muito bonito e cheio de sentimento.
avós são sem dúvida pais com açúcar! no meu caso, foi a minha avó. :)
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De Magda L Pais a 10.02.2017 às 15:20

:) os avós são fantásticos e do melhor que podemos ter
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De JP a 10.02.2017 às 15:48

Os avos.... sao parte do nosso ser... do nosso crescimento.... amo-os.... mesmo quase todos ja nao estarem por ca
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De Magda L Pais a 15.02.2017 às 15:59

acho que sem eles não seria quem sou. Todos os avós fazem falta
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De JP a 16.02.2017 às 14:24

Mesmo!
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De Alexandra a 10.02.2017 às 16:19

Que saudades dos meus pais com açúcar... eram bem parecidos com os teus :) 
Ao ler-te, estava a ver o meu Mário e a minha Durvalina :)
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De Magda L Pais a 15.02.2017 às 16:00

Mário e Durvalina, Manuel e Alcide... Avós como deve ser :)
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De C.S. a 10.02.2017 às 17:00

Os avós são pilares importantíssimos. 
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De Magda L Pais a 15.02.2017 às 16:01

concordo plenamente! fazem tanta falta

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