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e se eu morrer...

por Magda L Pais, em 07.03.17

Depois de ler Os Livros do Final da Tua Vida fiquei, mais uma vez, a pensar nos últimos dias que, um dia, terei para viver. Só há duas coisas que temos garantido na vida – o nascimento e a morte e nunca sabemos, ao certo, quando chega o fim. Sabemos apenas que ele chegará e que, até lá, devemos viver (e não sobreviver).

Já o disse várias vezes. Não tenha medo da morte. Não sofro por saber que, um dia, será a minha vez. Quem morre de véspera é o peru de Natal e eu quero viver cada segundo da vida intensamente.

Curiosamente, meditava eu sobre este tema, quando leio o texto da M.J. e pergunto-me, e se amanhã fosse o meu último dia? Do que iria sentir saudades? O que faria hoje? Como quereria que fossem as minhas últimas horas?

(que este post sirva também de testamento quando me acontecer alguma das coisas previstas. Nos casos omissos aplicar o bom senso tendo em consideração o exposto)

À família, se um dia eu começar a mostrar sinais de senilidade (mais do que agora, vá) ou se virem que já não consigo cuidar de mim, escolham um lar de terceira idade e internem-me. Visitem-me, leiam para mim (quando eu não o poder fazer) mas não me levem para as vossas casas nem queiram ser vocês a cuidar de mim. Tem de viver a vossa vida e não precisam duma velha rezingona e senil a azucrinar-vos o juízo. Já basta o que aturam de mim agora.

Se eu sofrer de alzheimer, e já não vos conhecer, leiam para mim. Tenho a certeza que me irá ajudar a passar o tempo e a me sentir melhor. Reconhecer-vos-ei nas palavras.

Se eu tiver alguma doença grave, com poucas/nenhumas hipóteses de recuperação e que me condene a uma vida vegetal… (e se possível) não me reanimem, não me deixem presa a uma cama, não me deixem sofrer.

(porque é disso que tenho medo, de sofrer, da dor)

Se eu tiver uma doença incurável e se souberem disso, não tenham medo de me falar no assunto. Não se coíbam de me falar do que sou para vós, na morte inevitável, na doença, ou no que desejo que aconteça quando morrer. É um facto e teremos de o aceitar, todos em conjunto. Não esperem pela minha morte para estar comigo, nessa altura não me servirá de nada. É em vida que vos quero por perto.

Ainda que tenha um tempo curto, deixem-me ter tempo para ler.

Porque também é disso que sentirei falta.

Aos meus amigos, a todos os que contribuíram ao longo da minha vida para me sentir bem comigo, não me despeço de vós. Quero apenas que saibam que saibam o quanto foram importantes para mim e o quanto, mesmo nas ausências, estiveram presentes.

A minha família, toda ela, é o meu pilar. Somos muitos, unidos, especiais no carinho que nos une em todos os momentos, mesmo quando estamos de candeias às avessas e prontos a discutir uns com os outros. Gostava que tantas outras famílias fossem assim, que se amassem até na discórdia. Por sermos diferentes, discordamos. Por nos amarmos, aceitamos que o somos. Mesmo quando não concordamos com as opções tomadas, respeitamo-las e aceitámo-las.

Gostava ainda que os meus filhos não sofressem em demasia com a minha partida porque, enquanto se lembrarem de mim, eu estarei viva nos seus corações e nas suas mentes. Queria que se mantivessem unidos e que se lembrassem sempre de se respeitarem um ao outro. Tentaria mostrar-lhes o quanto os amo e o quanto eles significam para mim.

Quanto ao meu corpo, aquele que não vou precisar, aproveitem tudo o que se puder. Se ajudar uma só pessoa a melhorar a sua qualidade de vida, já valeu a pena.

Não quero flores ou coroas. Não as levo comigo. Usem esse dinheiro para ajudar uma associação animal à vossa escolha. Qualquer uma delas dará melhor uso ao dinheiro do que eu darei às flores ou às coroas.

Sorriam e riam. Lembrem-se sempre da importância que dou ao sorriso e ao bom humor. Do positivismo com que encaro todas as situações (ou que tento pelo menos). Se quiserem deitar alguma lágrima, que seja por se estarem a rir. Também é do riso – do vosso e do meu – que irei sentir falta.

Não me enterrem. Gostaria de ser cremada, e as cinzas deitadas na serra da Arrábida ou em Sesimbra, no mar (não sei se é possível, mas pronto).

Não recordem o dia da minha morte mas sim os dias que vivi. Esses sim foram importantes.

E por fim a minha presença digital. A família tem a password do email e do facebook. Apaguem as contas, não quero memoriais on line (assim como não quero memoriais físicos). Quanto aos blogs, minha querida Gaffe, és a única que sabe a password. Nunca a quis mudar (principalmente porque, se o fizer, nunca mais me vou lembrar da nova…) e por isso deixo-te a tarefa de acederes de novo e de, em conjunto com a minha seita do arroz) colocarem um post em cada blog a informar do que aconteceu e fechem, por favor, os comentários. Despeçam-se por mim de todos os que por aqui passaram.

 

Não, não estou com nenhuma doença terminal nem prevejo morrer nos tempos mais próximos. Estou a morrer como estamos todos porque cada dia que vivemos é um dia que ficamos mais perto do fim, mas, realmente, Os Livros do Final da Tua Vida fizeram-me perceber que é sempre tempo de pensar nestas coisas e de deixar claro o que queremos.

Na vida e na morte.

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25 comentários

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De Outra a 07.03.2017 às 11:30

A inevitabilidade da morte devia levar-nos, mais vezes, a pensar e exprimir como queremos ser lembrados como acabaste de fazer. Só alguém de bem com a vida é capaz disso.
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De Magda L Pais a 07.03.2017 às 11:33

é como dizes. é inevitável e deviamos, todos, falar sobre o assunto. Infelizmente a maior parte das pessoas considera que falar na morte é tabu. e depois transmitem tambem isso aos filhos. Não faz sentido
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De Just_Smile a 07.03.2017 às 11:31

Vejo a morte como tu querida Magda, os teus desejos são os meus, mas admito que com as tuas palavras me veio uma pequena lágrima ao olho e olha que isso é muiiiiiiiiiiito raro!
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De Magda L Pais a 07.03.2017 às 11:43

moça, lágrimas só de riso, certo? é isso que queremos :D
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De Just_Smile a 07.03.2017 às 11:47

Há sempre aquela de saudade, mas isso ainda estará para vir, daqui a muiiiiito tempo, até porque gosto de ti :P
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De Magda L Pais a 07.03.2017 às 11:52

olha, estamos bem que eu tambem gosto de ti :)
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De Simple Girl a 07.03.2017 às 11:33

Vieram-me as lágrimas aos olhos... ao ler estas palavras parecia que estava a ouvir a minha mãe a dizer-me estas coisas. Ela também quer ser cremada e também não quer flores nem nada disso. A única diferença é que ela tem vários problemas de saúde, mas o positivismo que ela tem ajuda-a a ela, e a mim enquanto filha, a ultrapassar as suas idas para o hospital.
"Não recordem o dia da minha morte mas sim os dias que vivi. Esses sim foram importantes.", é por isto que gosto de recordar os momentos passados com as pessoas que me são mais importantes, as piadas e as gargalhadas. Temos que recordar o que passámos com as pessoas e não o dia quando elas morreram.
Acho que não se deve encarar a morte de uma forma tão dramática como às vezes é encarada. Claro que é complicado ver alguém que amamos  partir, mas é a lei da vida... não podemos fazer nada para mudar isso. É apenas a minha opinião, só tenho 23 anos, ainda não perdi muitas pessoas na minha vida mas já perdi vários amigos de quatro patas e para mim é a mesma coisa que perder uma pessoa que me é importante. A dor é para mim exactamente a mesma.


Peço desculpa pelo comentário tão longo mas gostei mesmo de ler este texto, muito, muito obrigada!
Um grande beijinho*
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De Magda L Pais a 07.03.2017 às 11:50

oh caramba, não era de todo minha intenção fazer-te chorar (ou ter lágrimas nos olhos). Entendo a tua mãe, oh se entendo. E só espero que o positivismo dela vos contagie. É importante, muito importante, encarar as coisas com positivismo, ajuda imenso no dia a dia. E não te importes por o comentário ser longo :)
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De M.J. a 07.03.2017 às 12:24

credo. vá-de retro satanás, vira para aí essa boca, lagarto, lagarto, lagarto, três vezes na madeira, porra, cala-te, num minerbes!
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De Magda L Pais a 07.03.2017 às 12:27

oh mulher! isto vai acontecer um dia, queiras ou não :) é inevitável. Por isso não te enerves. Tambem não precisas de começar já a escrever o post :p
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De sarabudja a 07.03.2017 às 14:44

Esse sentimento de finitude faz de ti tão Grande que te faz capaz de ser feliz com as coisas simples. (não me venhas contrariar e dizer que não se quê nem sei que mais e que exagerada. Eu estudei muitos anos para te dizer isto. Ou não.)
Desejo do fundo deste coraçãozito que por cá andes muitos anos: saudável,  por isso lúcida e feliz. 
Decerto quando morreres muitos chorarão. As saudades são umas cabras, diz uma conhecida minha. São espécie tão ruim que beliscam as carnes, atam nós nas gargantas e fazem chorar. Privar alguém de uma companhia que foi boa é uma dor. E as dores choram-se. Ainda bem que nos permitimos chorar. Só não nos devemos deixar cair no abismo da ausência de quem não volta, na vida feita tristeza.
Quanto às flores, que me desculpem as floristas, mas tens toda a razão. Uma associação animal, racional ou etc e tal dará melhor uso ao dinheiro. As flores que não são cheiradas pelos vivos, cheiram-me a ramalhete para outros apreciarem o tamanho do remorço. Ai que má língua!!


Que esses olhinhos leiam muitos livros, que desses muitos alguns te toquem de forma a teres necessidade de escrever o que pensas. Pensas bonito. À distância de um ecran, és uma senhora muito bonita no viver. 
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De Magda L Pais a 07.03.2017 às 14:52

Mas concordo. São as coisas simples que me fazem mais feliz. Não preciso de nada de extraordinário. Um livro, um sorriso são quanto basta. Sim, as saudades são umas cabras. Mas não vivemos apenas de saudades, temos de viver dos bons momentos, dos sorrisos que nos acompanham. Não quero que contenham as lagrimas mas não vivam delas. Vivam dos outros momentos. Dos bons. Das presenças e não das ausencias.
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De sarabudja a 07.03.2017 às 14:57

Concordamos, portanto.
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De Magda L Pais a 07.03.2017 às 14:59

Sem dúvida :)
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De Maria das Palavras a 07.03.2017 às 18:22

Eu quero é saber quem é que fica com os teus livros!! Eheheh. 


Pronto, pronto, da parte do arroz, tens o desejo garantido. Agora é só esperar que não me passe um comboio em cima antes... :p
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De Magda L Pais a 07.03.2017 às 18:37

Olha, pois, não sei quem ficará com os livros. Haverá por ai candidatos?...
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De sara a 08.03.2017 às 08:00

Oh Magda, ler isto logo pela manhã não é fácil :( É realista, eu sei, mas eu sou daquelas pessoas que não consigo lidar com a morte e com tudo o que ela acarreta. Com a dos outros, vá. a minha, para já, não me incomoda.


Fiquei curiosa de ler o livro!
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De Magda L Pais a 08.03.2017 às 14:27

Vais gostar do livro, é impossível gostar de livros e não gostar deste (se bem que a Livraria dos Finais Felizes é melhor)
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De Alexandra a 08.03.2017 às 14:23

Vai-te catar pá!! 
(eu a pensar que era um testamento dos livros... nada)
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De Magda L Pais a 08.03.2017 às 14:27

ahahahahahahaahahahah os livros depois são doados. Ou ficam para os meus filhos. não apareceram candidatos ainda a ficar com eles
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De Maria Araújo a 09.03.2017 às 15:59

Choro pelo que aqui escreveu, Magda.
Sabe porquê?
Por que tenho exactamente os mesmos desejos.
Quero ser cremada, também. 
Não devo nada a ninguém, nem ao banco, tudo saldado, não deixo dívidas, mas também não deixo riqueza.
Mas gostava que se juntassem os meus amigos ( aqueles poucos, de peito, em quem confio as minhas alegrias e tristezas)  e família, fossem jantar, ouvissem músicas que eu gosto, e bebessem um champanhe à minha memória.
É tudo o que quero. Sou uma pessoa com muitos defeitos, mas simples
E quanto mais velha fico, mais eu adoro viver o que tenho à minha disposição. 
Grande mulher, Magda. 
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De Magda L Pais a 09.03.2017 às 16:05

mas não chores. encara isto com a alegria com que o escrevi. estas coisas devem ser ditas antes e não depois. Em vida, não em morte. E obrigado pela última frase, é muito importante
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De Maria Araújo a 09.03.2017 às 19:38

Chorei pela sinceridade e realidade das palavras.
Já pensei fazer um testamento, deixar escrito o que quero que façam de mim.
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De Magda L Pais a 10.03.2017 às 11:37

eu pensei e fiz. Se bem que toda a familia sabe dos meus desejos, de vez em quando falamos sobre isso
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De Sandra Dias a 19.03.2017 às 23:55

Magda é verdade que a lei da vida diz que quem nasce morre, mas há alguma situações muito difíceis de superar. 
Infelizmente ontem tive de deixar partir o meu anjinho canino para ele não sofrer mais e foi uma dor muito forte e muito violenta que tem de se tomar e que custa horrores e a falta que ele me faz e fica um vazio enorme difícil de preencher e não está a ser fácil, está a ser muito doloroso,
 Beijinhos da Sandra.

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