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Hiperactividade ou má educação

por Magda L Pais, em 21.04.16

Aqui há uns dias li o título duma crónica que dizia que as crianças não são hiperactivas, são mal-educadas. Claro que, depois, no texto propriamente dito, o autor acaba por dizer que, efectivamente, existem crianças hiperactivas mas que também existem muitas crianças mal-educadas. É um facto. E é coisa que já falei aqui várias vezes porque não há, hoje em dia, pais maus. E quem o é, acaba por ser olhado com estranheza pelo resto da sociedade. Um dia isto tinha que acontecer e pode ser que, cada vez mais pais aprendam com os erros dos outros.

De qualquer maneira e voltando ao título da crónica, confesso que, quando o vi a primeira vez, fiquei eriçada e com vontade de convidar o autor a conviver com uma criança realmente hiperactiva para que ele percebesse o que é ser pai ou mãe nessas circunstâncias.

Como eu sou.

Desde cedo que o percebemos. A incapacidade de estar sossegado a brincar, a dificuldade em estar parado num sitio, nem que fosse a conversar connosco ou a ver um filme, a impulsividade (como se as mãos se mexessem mais depressa que o cérebro)... Foram várias as situações que nos fizeram perceber que o meu filho era (e é) uma criança hiperactiva. 

Falamos com o pediatra, expusemos as nossas dúvidas e todos concordamos que a medicação não seria opção. Seriamos apenas pais dele - ou seja, daríamos educação e seriamos firmes, não desculpando comportamentos menos correctos.

Claro que, quando começou a escola primária a professora foi posta ao corrente do que se passava e, todos em conjunto - pais, familiares, professora, escola e auxiliares - colaboramos para que os primeiros quatro anos de horários fixos, aulas e maior necessidade de concentração corressem da melhor maneira possível. E conseguimos.

Os problemas começaram no quinto ano. Demasiados professores diferentes, uma maior carga horária e maior necessidade de concentração. Correu mal. Muito mal. A hiperactividade estava a por em risco o aproveitamento escolar.

Diga-se, num aparte, que parte da culpa da hiperactividade das crianças por em risco o seu aproveitamento escolar advêm da escola não estar preparada para lidar com estas crianças. Como explica Luís Borges, as crianças passam tempo a mais na escola em actividades que lhes exigem atenção e, por outro lado, os professores - por terem turmas muito grandes - não conseguem dar, às crianças, a atenção necessária.

Desde há três anos que o meu filho toma Ritalina. Pesamos, com o pedopsiquiatra, os prós e os contras da medicação e, mais uma vez em conjunto, decidimos que, pelo menos no período de aulas, a Ritalina era necessária para ajudar a impedir que o aproveitamento escolar estivesse em risco. Não me agrada que assim seja, naturalmente, mas infelizmente sei que, os recados dos professores aumentam se ele deixa de a tomar. Nas palavras do actual director de turma, o meu filho é educado, nunca respondeu torto a um professor, é interessado e inteligente. Mas, quando não toma a Ritalina percebe-se logo porque se distrai com demasiada facilidade, tem dificuldade em estar sossegado na sala de aula e não consegue fazer responder a todas as questões do testes.

Por isso... não me voltem a dizer que não há crianças hiperactivas mas sim crianças mal educadas. Porque isso não é, de todo, verdade!

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20 comentários

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De Fatia Mor a 21.04.2016 às 09:45

Esses títulos sensacionalistas têm uma razão de ser. A hiperactividade é um fenómeno sobrediagnosticado. Ou seja, a procura de uma resposta para os comportamentos indisciplinados das crianças levou a que muitos médicos e psicólogos diagnosticassem a hiperactividade com défice de atenção em casos que se trata de outros fenómenos como por exemplo, a falta de maturidade, o chamado relative age effect, ou até mesmo a falta de educação. 
A verdade é que o diagnóstico não é simples. E há muitos factores que podem afectar o diagnóstico. Há inclusive quem mascare os sintomas porque a medicação, em crianças normais, pode melhorar o seu desempenho (devido ao aumento da capacidade de atenção-concentração). 
Infelizmente, a verdade é que há muitas crianças que sendo diagnosticadas como hiperactivas não o são, e depois, claro, paga o justo pelo pecador nessas generalizações abusivas. 
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De Magda L Pais a 21.04.2016 às 09:57

Sempre fui e sempre serei contra as generalizações. Porque, como bem dizes, paga o justo pelo pecador.
Bem sei que há casos de má educação pura. Pais que se demitem completamente do seu papel e que se estão nas tintas para o que os filhos fazem e a quem, se falares na Ritalina, até te agradecem porque é mais uma coisa para não se preocuperem mais com eles. mas caramba, para quem tem uma criança hiperactiva em casa não é fácil perceber que comparam má educação com hiperctividade...
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De Sofia a 21.04.2016 às 09:48

Eu nunca acreditei que não existissem crianças hiperativas, mas acredito sim que a Ritalina é prescrita em excesso. Não acho que seja, necessariamente, porque as crianças são mal educadas, Também acho que o é porque as crianças têm cada vez menos espaço para brincarem, para queimarem energias, são obrigadas a estar quietas durante muito tempo, o que não é natural. Já me contaram um caso de uma instituição que acolhe crianças que tinha sempre um armário cheio de Ritalina. Com tudo isto, pais de crianças que têm mesmo um problema a sério levam com juízos de valor injustamente.
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De Magda L Pais a 21.04.2016 às 10:03

Sem dúvida que é um problema bem grande o facto da maior parte das crianças não ter espaço - temporal e fisico - para brincarem e, talvez, isso justifique haver mais crianças com problemas de comportamento (isso e o facto de muitos pais acharem que educar é deixar andar). A Ritalina não é solução para ninguem e os próprios medicos deviam recusar-se a passar a receita nos casos em que houvesse dúvidas
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De Olívia a 21.04.2016 às 10:04

Tenho cá para mim que falar porque se está "de fora" a ver é muito mais fácil, esta pessoa (que eu não sei quem é) fala porque deve ter filhos a roçar na perfeição, ou talvez nem os tenha... 
Apoiar os pais, ver se precisam de ajuda, encaminhar, conversar é muito mais complicado. Sei que há pais que não reconhecem que os filhos precisam de acompanhamento especial, sei que há pais que nem vão ao médico, dizem que os filhos são burros...  conheço casos bem perto em como uma ida à clínica do desenvolvimento bastaram para que a criança fosse devidamente diagnosticada e acompanhada e conseguisse ter sucesso a nível escolar e de social... mas é preciso que as pessoas sejam informadas, mas muitas das vezes é mais fácil não ver ou não querer ver...
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De Magda L Pais a 21.04.2016 às 11:13

Ah sim, há pais que preferem não ver o que se passa. Muitos mesmo. E quando se diz que os filhos devem ser vistos por quem perceba do assunto (leia-se um médico) ainda ficam muito ofendidos. É uma estupidez. Não é vergonha alguma, antes pelo contrário. Vergonha é não se tratar dos problemas quando surgem e deixar que aumentem
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De A rapariga do autocarro a 21.04.2016 às 10:42

Ainda há muito preconceito por parte de certos pais, conheço alguns que olham de lado quando se fala de acompanhamento psicológico em crianças. Há comportamentos que precisam do crivo de um especialista para nós próprios os entendermos e saber lidar com eles, com ou sem medicação, porque cada caso é um caso.
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De Magda L Pais a 21.04.2016 às 11:15

é como eu dizia acima. Não é vergonha alguma tratar estes casos. Vergonha 
é não se fazer coisa alguma e deixar as situações se arrastarem e piorarem
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De nervosomiudinho.blogs.sapo.pt a 21.04.2016 às 10:56

Eu e o meu irmão éramos crianças com energia a mais, brincávamos muito na rua, corríamos mesmo muito, não estava parada nem a comer, mas quanto à concentração e estudos não havia problemas, além de falar de mais.  Com isto um pai/mãe percebe que uma coisa é o normal de miúdos e outra é um problema que tem de se diagnosticar. As pessoas gostam de vaticinar coisas a mais. Se os haverá com sobre-diagnóstico, acredito que sim, mas não será com certeza a maioria. 
E quando ao post polémico da cocó. O meu irmão pisou duas vezes um olho à minha tia, e até na bisavó às vezes a calcava, com dois anitos ou assim. A bisavó protegia-o, ai de quem tocasse no menino, não queria que fosse repreendido e também era capaz de lhe dar doces. Foi repreendido claro, mas era mesmo assim o miúdo, mal teve capacidade de entendimento, nunca mais o fez, foi uma fase parvita de uns meses. É uma das pessoas mais íntegras que conheço, e voilá não se tornou num psicopata. 
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De Magda L Pais a 21.04.2016 às 11:18

Hoje em dia as crianças correm menos, brincam menos e é-lhes exigido mais e mais cedo. Isso acaba por complicar as coisas, naturalmente. E depois tens pais que não se preocupam minimanente com o que se passa com os filhos (ou sequer em educá-los). tudo junto... dá asneira
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De nervosomiudinho.blogs.sapo.pt a 21.04.2016 às 11:25

Também ajuda com certeza. A sociedade mudou muito em muito pouco tempo. não lhes dão tempo de ser miúdos, e brincar e sujar. Querem ensinar a ler na pré-primária, talvez isto tenha influência. Força para ti, que não deve ser fácil  e deves levar com muito juízo de valor e opiniões não solicitadas. 
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De Magda L Pais a 21.04.2016 às 11:33

tempo para brincar e sujar as mãos é o que mais falta faz aos miudos.

Sempre me borrifei para as opinões alheias. Faço o que acho melhor para os meus filhos e pronto!
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De marta-omeucanto a 21.04.2016 às 11:07

A hiperactividade não é algo inventado pelas pessoas para justificar ou desculpar determinados comportamentos dos filhos. Ela existe, e não é fácil, nem para os pais, nem para as próprias crianças, lidar com ela. E também não será fácil aos professores e pessoal docente, dadas as condições proporcionadas pelas escolas, e porque muitas vezes, mais do que não poder dar a atenção necessária a um determinado aluno é, mesmo podendo, não saber lidar com crianças hiperactivas.
Mas, como em muitos casos, porque não se tem conhecimento de causa, ou porque querem generalizar ou desvalorizar algo que é real, preferem considerar que não existe, e que se trata de algo que não é, pondo tudo no mesmo saco.
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De Magda L Pais a 21.04.2016 às 11:30

exactamente! eu não critico directamente os professores porque sei perfeitamente que lhes é impossível dar a atenção aos miudos que mais dela precisam. Uma das nossas preocupações, lá em casa, é precisamente alertar no inicio do ano escolar para o problema do gaiato mas percebo perfeitamente que não possam fazer mais.
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De M.J. a 21.04.2016 às 11:23

só para dizer que se os meus putos não tiverem hiperatividade eu invento-a! 
se saírem a alguém que conheço vou precisar de doses dessa coisa do lina, ou tina, ou que é para os manter calmos.
isso ou as minhas duas mãos.
mas como não quero ser processada por maus tratos acho que a medicação será sempre uma boa opção.


(o que é que eu tenho de dizer aos médicos para que a prescrevam? ou é de venda livre?)
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De Magda L Pais a 21.04.2016 às 11:31

Quando for nessa altura chamas a Rita. Ou a Lina. Ou as duas juntas ehehheheheeh
E não, não é de venda livre. Mas podemos falar na altura... quanto pagas?
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De Just_Smile a 21.04.2016 às 13:18

Há sim crianças hiperactivas, conheço umas quantas em que a toma da medicação é realmente necessária para o aproveitamento escolar. O problema hoje é que há muiiiiitos maus diagnósticos confundidos com hiperactividade, tinha um caso específico que o paizinho da criança dizia que esta era hiperactiva, assim como o pediatra, mas não tomava medicação e durante a sessão bastava ameaçá-lo com a falta do seu jogo preferido ou falar um pouco mais algo para lhe chamar à atenção que o miúdo portava-se lindamente (algo que não acontece com uma criança verdadeiramente hiperactiva). Hoje a generalização é demasiada da hiperactividade, e acredito que 90% dos casos com este diagnóstico têm simplesmente falta de educação, é muito mais fácil dar uma medicação do que educá-los...
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De Magda L Pais a 21.04.2016 às 13:35

lá está, eu admito que há casos de má educação por parte dos pais. Muito má educação (ou mesmo ausência dela). Mas a hiperactividade existe. E o que titulos como o daquela crónica fazem é com que os pais de crianças realmente hiperactivas se sintam inferiorizados, ou, no minimo, como maus pais
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De Just_Smile a 21.04.2016 às 14:07

Isso faz-me lembrar a outra a dizer que a intolerância à lactose foi inventada pelos fabricantes de soja :P
Generaliza-se demasiado as coisas hoje, acredito que o artigo não seja directamente para pais que têm realmente filhos com hiperactividade, mas a verdade é que a educação e a hiperactividade são cada vez mais confundidos....

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