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Madeline Stuart e o seu sonho

por Magda L Pais, em 20.08.15

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Aos 18 anos, Madeline Stuart vai concretizar o seu sonho desfilando na Semana da Moda de Nova Iorque. Isto não seria notícia, não fosse o caso de Madeline ter trissomia 21 e ser considerada deficiente.

Felizmente para Madeline, a marca pela qual vai desfilar, a FTL Moda não se preocupa com os padrões nem com os estereótipos e prefere apostar na consciência, aceitação e inclusão, conceitos, aliás, que a própria Madeline defende.

Mas também isto não deveria ser noticia.

Numa sociedade ideal, quem tem trissomia 21 ou outros problemas que tais, deveria ser encarado exactamente como quem não tem. Incluídos na sociedade e tratados da mesma forma, sem penas ou diferenças.

Conheci, a semana passada, um casal com dois filhos. Um deles, fruto da asneira da equipa clínica que acompanhou o parto, teve um AVC na barriga da mãe e, por isso, tem limitações físicas e psicológicas razões pela qual o seu desenvolvimento está bastante atrasado. Mas isso não impede os pais de se zangarem com ele quando faz as asneiras próprias duma criança ou de serem exigentes. Ambos os filhos são tratados precisamente da mesma maneira. Ao fazê-lo, obrigam a que o filho se desenvolva.

Lembro-me, a este propósito de mais dois casos, mais antigos. Dois casais vizinhos dos meus pais tinham, cada um deles, um filho com trissomia 21. Os rapazes tinham mais ou menos a mesma idade. Num dos casos os pais tratavam-no como outra criança qualquer. Lembro-me de o ver ir à padaria, sozinho, comprar pão, de ouvir os pais barafustarem com ele e de o ver na rua a brincar. Quando se perguntava aos pais pelo miúdo eles falavam nele com imenso orgulho – das conquistas e dos disparates que fazia.

No outro caso, o miúdo raramente era visto. Lá de vez em quando aparecia à janela mas logo a mãe aparecia para o meter para dentro. Os pais quase que fugiam às perguntas sobre o filho, e, nas raras vezes que ele saia com os pais era quase escondido, como se tivessem vergonha dele.

Pensem lá um bocadinho comigo, destes casos todos que vos contei, qual deles vos parece o mais incorrecto e que devia ser a forma da sociedade não agir?

Então se estamos de acordo, porque é que Madeleine Stuart é notícia?

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10 comentários

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De Olívia a 20.08.2015 às 09:45

Magda, pode parecer simples, mas a nossa sociedade não é assim tão inclusiva... ser mãe/pai de uma criança diferente não é fácil justamente porque há sempre alguém na sua infinita sabedoria que opina sobre coisas que não vive... por fazer aquilo que contas desse casal, ou seja exigir da Margarida o que se deve exigir a uma criança/adolescente fui rotulada de má mãe muitas vezes... e na maioria delas por pessoas que se diziam minhas amigas! Para elas eu devia tratá-la como um bebé... e se assim fosse ela não seria a rapariga autónoma que hoje é! 
Mas vai lá dizer isso às pessoas!!!!
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De Magda L Pais a 20.08.2015 às 14:55

por acaso lembrei-me de ti quando escrevia este texto :D sim, é importante tratá-los como as outras crianças e acho que fizeste lindamente. Um dia vai-lhe fazer falta essa autonomia, sem dúvida
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De Paulo Vasco Pereira a 22.08.2015 às 12:07

Essas pessoas, as do "coitadinha", "não sejas exigente", etc. e tal, na sua maioria não são nada e têm um preconceito que não conseguem esbater. Julgam que o portador de deficiência é/ será um coitadinho. Não! Dentro das suas limitações devemos exigir e prepará-lo para a vida ativa. De início as pessoas estranham mas depois habituam-se. Recordo, nos meus tempos de educação especial, quando fui pela primeira vez às compras com um menino de 15 anos, portador de Síndrome Fetal Alcoólico... De repente, todos nos olhavam. Como a minha 1.ª reunião, referente a outro caso, estreando-me no novo cargo começou comigo quase a atirar um livro à cara de uma prof., no supermercado fiz a figurinha: "Estão a olhar para mim? Mas já sabem que sou louro!". Atualmente, das "disciplinas difíceis", regra geral o portador de deficiência apenas vai a Port, Mat e CN. Por vezes diminuem a carga horária de Mat e Port. Regra geral, tenho-os lá sempre.
Mas há pais que têm vergonha das deficiências das suas crias. Vergonha acentuada, muitas vezes por defeitos mínimos, como se a perfeição existisse. Já outros, culpabilizam-se. Daí o comportamento da Sr.ª que quase esconde o filho. Nesses meus tempos de ed. especial, recebia os pais a qualquer hora, dado a escola ficar muito longe de onde vivo e passar lá toda a semana. Os funcionários eram fantásticos. A escola não tinha psicóloga nem outros técnicos. Procurei dar o meu melhor. Então, para quebrar o gelo, pedia que vissem em mim um padre ou alguém de extrema confiança. Alguns casos, atribuíam a deficiência do descendente à posição sexual adotada. E não pensem que se tratava de acrobacias ou qualquer coisa fora do normal. Viajando à década de 70, dado o meu irmão ter nascido portador de deficiência que o conduziu à morte com um ano e três meses,  já eu fui "feito" na posição inversa. É muito complicado mas a discriminação existe e como diz a Olívia, a inclusão não é assim tanta. Aparências... 
Uma sugestão: investiguemos quantos casos de deficiência a trabalha em supermercados, por exemplo, têm realmente ordenado. Dos que têm, o que faz com que seja inferior ao dos colegas quando realizam o mesmo serviço? 
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De Magda L Pais a 24.08.2015 às 11:26

a sociedade precisa mesmo de mudar o seu comportamento em relação a estas situações, sem dúvida
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De Cris a 20.08.2015 às 12:27

Parece-me que as crianças que, tendo trissomia 21, são tratadas como outra criança qualquer devem ser mais felizes. Se a Madeleine é notícia, que seja a única vez que é e que, da próxima, já não haja Madeleines com direito a notícia, porque se tornou habitual. Mas tu sabes que não há tratamento igual para tantas, mas tantas situações...
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De Magda L Pais a 20.08.2015 às 14:57

sim, há ainda um longo (muito longo) caminho a percorrer antes que a Madeleine e outras deixem de ser noticia. Mas tenho esperança que lá se chegue
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De Maria das Palavras a 20.08.2015 às 13:38

Eu ainda vou um bocadinho mais longe, sem querer ferir susceptibilidades, mas...por exemplo, hoje saiu um artigo na NIT, com exemplos de modelos que estão a quebrar barreiras. Eu nunca poderei vir a ser modelo porque não tenho altura suficiente para isso ou porque tenho celulite (nem vamos falar do resto), porque é que alguém que está de cadeira de rodas, que tem a pele manchada por doença, ou é muito gorda, ao ponto de não ser saudável e não poder constituir exemplo, pode? E ainda é sobre-aplaudido por isso?

Não é também isto uma forma de descriminação encapotado de positivismo? 
Ou não são as marcas a aproveitar-se da situação para criarem oportunidades de marketing viral?
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De Magda L Pais a 20.08.2015 às 15:00

e porque é que a altura ou a celulite são critérios de exclusão? obviamente que excessos em excesso não. excessivamente gordas ou excessivamente magras não faz sentido. mas pessoas normais (e nos normais incluio as deficientes ou com algum handicap) acho bem que sejam modelos. Até como incentivo para qeu outros lhes sigam o passa da normalidade.
Claro que as primeiras marcas  a apostar nestes modelos são as mais faladas, eles sabem disso e aproveitam-se disso. Mas já é positivo
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De Maria das Palavras a 20.08.2015 às 15:38

Assim está bem: igualdade é igualdade e sem exploração ao género "miúdas com celulite para a Dove ser a marca fofinha que trabalha até com pele casca de laranja"...
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De Magda L Pais a 20.08.2015 às 15:40

é essa a ideia precisamente :D

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